Sem-terra de Mariluz acampam na Mitacoré
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sexta-feira, 10 de julho de 1998
Edna Mendes 
Parte das 350 famílias que foram retiradas da Fazenda Santa Gertrudes, em Mariluz (região Noroeste), estão integrando desde a noite de anteontem, o acampamento de sem-terra localizado nas proximidades da Fazenda Mitacoré entre os municípios de Santa Terezinha de Itaipu e São Miguel do Iguaçu. Estima-se que cerca de 100 famílias estão no local. As outras famílias teriam ido para o acampamento da Fazenda Rami, em Diamante do Oeste.
As famílias, maioria de brasiguaios (agricultores brasileiros que migraram para o Paraguai), estavam sendo levadas para Foz do Iguaçu. Na noite de anteontem, os sem-terra que já estavam no acampamento desde o ano passado impediram que o comboio de quatro ônibus, escoltado pela Polícia Militar, prosseguisse até Foz. Usando foices e facões os sem-terra bloquearam por uma hora e meia o tráfego na BR-277. Eles só liberaram a passagem de veículos depois que a Polícia Militar permitiu que os brasiguaios ficassem no acampamento da Fazenda Mitacoré.
Ney de SouzaCelso Dresh mostra ferimentosUm quinto ônibus que acabou se separando do comboio, chegou na Rodoviária de Foz do Iguaçu com 35 pessoas. Elas passaram a noite no Albergue Municipal e em casa de parentes. Ontem, alguns já integravam o acampamento da Mitacoré, outros voltaram para o Paraguai. A coordenação regional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ainda não tem o número oficial de pessoas que estão no local, mas estima-se que sejam aproximadamente 230 famílias.
De acordo com um dos coordenadores do MST em Curitiba, Dirceu Bousfleuer, o movimento ainda não tem para onde encaminhar as famílias provenientes de Mariluz. Não temos estrutura para abrigar todo esse pessoal. O Instituto Ambiental do Paraná (IAP) ficou de conseguir um local para alojar esses sem-terra, mas ainda não temos nada oficial. Estamos indignados com esta situação. É inacreditável que o governo do Paraná queira que brasileiros voltem para o Paraguai para sobreviver, disse. A possibilidade de invasão de terras no Oeste não está descartada.
A maioria dos sem-terra que veio da Fazenda Santa Gertrudes acusa a Polícia Militar de ter roubado dinheiro dos barracos no momento da desocupação. O sem-terra Luiz Mozart Teixeira afirmou que foi roubado em R$ 80,00. Isso não foi um despejo, foi um assalto. Não tem família que não foi roubada, disse. Milton Vinter afirmou que teve R$ 635,00 roubados. Esse dinheiro era de bens que vendi antes de sair do Paraguai para ir a Mariluz. Felizmente não levaram a quantia em guarani que eu tinha, contou.
Contrariando a versão do Comando da Polícia Militar que afirma não ter usado violência e nem disparado tiros no momento da desocupação, os sem-terra dizem que a polícia atirou para o alto e fez ameaças com armas.
O sem-terra Celso Dresh, de 42 anos, teve ferimentos nas costas e afirma que foram provocados por resíduos de disparos de arma de fogo da PM. Minha sorte é que foi a distância. É mentira que não teve tiro, disse. Ele também acusa a polícia de ter roubado R$ 50,00 e 70 mil guaranis de seu barraco.
O sem-terra Claudemir Bandeira, de 30 anos, está com sérios problemas renais e perdeu os remédios na desocupação. Ele apresenta inchaço em todo o corpo e reclama de fortes dores nos rins. A família diz que teve o dinheiro roubado e por isso não tem condições de levá-lo a um hospital.


