Sem-terra cercam prefeitura de Ibema
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segunda-feira, 27 de julho de 1998
Paulo Pegoraro 
Cerca de 400 trabalhadores sem terra marcharam ontem cedo de acampamento às margens da BR-277 para a cidade de Ibema (53 quilômetros a leste de Cascavel) para forçar o prefeito Adelar Arrosi (PDT) a atender reivindicações que apresentaram há várias semanas, principalmente nas áreas de saúde e educação. Ao chegar na cidade, os sem-terra souberam que o prefeito havia determinado a suspensão do expediente e viajado, por isso realizaram manifestação em frente ao prédio. Eles disseram que permanecerão no local até que o prefeito apareça para dialogar.
O acampamento, a 7 quilômetros da cidade, reúne 600 famílias, segundo a coordenação local do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). O número vem aumentando a cada dia, indicando que está sendo preparada a invasão de alguma fazenda da região. Isso vai ocorrer mesmo, se o governo não providenciar assentamento, disse o coordenador Márcio Reisner, 23 anos. Ele informou que apenas 40 famílias são de brasiguaios (agricultores brasileiros que emigraram para o Paraguai há 20 anos e agora estão retornando ao País). As demais são de municípios do Oeste e Sudoeste paranaense.
Os sem-terra também querem a presença de representantes do Incra no acampamento às margens da BR-277 para negociar o assentamento. Na manifestação, eles gritavam palavras de ordem como queremos terra no Paraná, não no Pará. Segundo Márcio Reisner, tem muita fazenda improdutiva aqui, por isso não adianta falar no Pará. Na semana passada, em uma reunião em Medianeira, funcionários do Incra fizeram oferta de terras no Norte do País, na região de Eldorado de Carajás, palco de permanentes conflitos fundiários, onde haveria 4 milhões de hectares disponíveis.
Algumas lojas e mercearias de Ibema fecharam as portas por volta das 9 horas de ontem, pouco antes da chegada dos manifestantes, porque os proprietários temiam saques. Segundo o presidente da Associação Comercial e Industrial local, Elói Bodanese, o prefeito espalhou boatos sobre saques e assustou os comerciantes.
Bodanese, que se identifica como adversário político de Adelar Arrosi, disse que os sem-terra nunca ameaçaram violência. O empresário criticou a atitude do prefeito de chamar a PM para proteger a prefeitura e o Banestado, mas não para proteger o comércio, o que deveria ter feito, já que falou em saques.
Cerca de 30 PMs foram destacados para acompanhar a manifestação, que ocorreu sem incidentes. Os lavradores querem que a prefeitura garanta atendimento à saúde. Segundo Márcio Reisner, funcionários dos postos de saúde dizem que não têm obrigação de atender sem-terra. Também querem transporte escolar para as crianças (no acampamento há cerca de 1,3 mil com idade até 12 anos) frequentarem estabelecimentos municipais, ou então que seja destacado um monitor para atuar com elas no próprio acampamento.
A Folha tentou localizar o prefeito Adelar Arrosi, mas em sua casa a informação foi de que ele viajou para local desconhecido.


