Sem-terra acusam a PM de espionar os acampamentos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de julho de 1997
Lucília Okamura Londrina 
A Polícia Militar está infiltrando espiões nos acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). A acusação é da coordenação regional do movimento, que toma como prova o fato do pedido de prisão temporária de seis sem-terra ter sido feito com base em depoimento de dois integrantes da P-2 - serviço reservado da PM.
Os seis sem-terra tiveram a prisão pedida pelo delegado do 3º Distrito Policial de Londrina, Jurandir Gonçalves André, na semana passada. Ele preside inquérito sobre a morte do segurança José Lopes de Oliveira, o Django, ocorrido em 27 de abril, na Fazenda Borborema, em Tamarana (60 quilômetros de Londrina), durante conflito com os sem-terra.
O advogado do MST, Gerson da Silva, diz que ficou sabendo do pedido de prisão temporária na sexta-feira e que foi atrás do inquérito para saber os motivos. Ele (o delegado) pediu a prisão com base nos depoimentos de policiais da P-2 (o sargento Felix e o aspirante Adenilson), que prestaram depoimento como testemunhas e confirmam que estavam no acampamento, afirma Gerson da Silva.
Na opinião do advogado, não é papel da P-2 espionar acampamentos de sem-terra. Isso acontecia na época da ditadura, não pode estar ocorrendo hoje, quando estamos vivendo em uma democracia.
Além de criticar a atuação da P-2, Gerson da Silva afirma que os PMs deram falso testemunho, já que apontaram um sem-terra conhecido como Zé Barranco como um dos acusados.
O nome verdadeiro de Zé Barranco é José Lourenço Barbosa, da coordenação regional do MST. Ele nega que estava na fazenda Borborema, no dia do crime, afirmando que se encontrava na casa do sogro, na fazenda Ingá, em Bela Vista do Paraíso (35 quilômetros de Londrina).
José Lourenço diz que ficou sabendo do pedido de sua prisão na semana passada, através da imprensa. Fiquei chocado, mas, ao mesmo tempo tranquilo, porque não estava lá, conta. O sem-terra diz que chegou a visitar a Borborema, mas muito antes da morte de Django.
José Lourenço afirma que, ao acusar lideranças do MST de envolvimento no crime, a PM tem o objetivo de desvalorizar a imagem do movimento. José Damasceno de Oliveira, também da coordenação regional do MST, tem a mesma opinião. Daqui a pouco eles podem falar que eu também estava envolvido, ironiza.
José Damasceno acredita que outros policiais estão infiltrados nos assentamentos e diz que o movimento não tem como descobrir todos. O advogado do MST diz que ainda hoje pretende pedir ao Ministério Público que instaure procedimento administrativo para apurar se são ilegais ou não as atividades desenvolvidas pelo serviço reservado da PM. Ainda de acordo com o advogado, o delegado responsável pelo inquérito estaria sendo pressionado pela Sociedade Rural do Paraná (SRP) para incriminar lideranças dos sem-terra.
O delegado Jurandir André confirma que os pedidos de prisão foram feitos com base nos depoimentos dos policiais militares e que é válido este procedimento. É válido desde que a fonte não seja ilegal, completa. Ele diz que os PMs foram arrolados como testemunhas no inquérito e reconheceram alguns sem-terra através de fotos ampliadas das cenas filmadas por cinegrafistas de TV. Nomes de outros acusados foram conseguidos pelos PMs com seus informantes, segundo o delegado.
Em seus depoimentos, os policiais afirmam ter visto Zé Barranco no dia do crime. Além disso, eles dizem que os sem-terra vinham sendo acompanhados pelo serviço reservado da PM, nas áreas invadidas. O delegado diz que chegou aos dois PMs durante as investigações, sem entrar em detalhes.
Jurandir André nega que esteja sendo pressionado para incriminar lideranças do movimento. Ele diz que a tramitação do inquérito vem sendo acompanhada por várias instituições, como a Procuradoria Geral do Estado, a Assembléia Legislativa e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
O comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Marino Ari Burille, não foi encontrado pela Folha. Ontem, ele estava em Curitiba, participando de uma reunião do comando. O vice-presidente da SRP, Luis Neme, estava em reunião e não retornou a ligação.


