Ele tem 13 anos de idade, leva consigo um sorriso maroto e apesar de já ter vivido na rua, hoje sente medo e quer distância de confusão. Há uma semana morando provisoriamente na casa de uma tia, ainda sem frequentar a escola, Leandro (nome fictício) é ameaçado de morte e não pode voltar para casa, nem levar uma vida normal como qualquer adolescente de sua idade. O caso dele reflete a realidade de outros milhares de adolescentes no Brasil que vivem sob ameaça de bandidos. Em Londrina, casos como esses acontecem todos os dias e os números revelam que a demanda cresce a cada ano.
As ameaças contra Leandro começaram depois que ele, por um acaso, presenciou um roubo. Ele conta que no bairro em que morava, um homem teria furtado alguns objetos e os teria escondido dentro de casa. Uma noite, quando ele e alguns amigos faziam uma fogueira na rua para brincar, uma outra pessoa entrou na casa para roubar os mesmos objetos que já tinham sido roubados. ''Essa pessoa falou para a gente que se alguém contasse quem ele era, ele matava. Agora o cara que tinha roubado os objetos primeiro quer que eu fale pra ele quem foi. Se eu não falar ele me mata, mas se eu contar, eu morro também'', disse.
Assustado com tudo o que aconteceu, Leandro já está cansado de fugir. Como muitos adolescentes da sua idade que pertencem a uma classe desfavorecida, ele não está sentindo muita falta da escola, mas confessa que queria um lugar para ''morar em paz''. Também sob ameaça, a mãe de Leandro precisou sair de casa e hoje, desamparados, os dois procuram ajuda.
Leandro pode demorar muito tempo para encontrar um lugar onde 'morar em paz'. Apesar de Londrina contar com 15 unidades em entidades para abrigar crianças e adolescentes em situação de risco, nenhuma delas atende menores ameaçados. Com isso, os conselheiros tutelares convivem com um dilema: para onde levar esses meninos?
O presidente do Conselho Tutelar Sul, Luis Bárbara, conta que casos como o de Leandro ocorrem quase todos os dias. ''As vezes a gente fica o dia inteiro com um menino no carro tentando achar algum familiar que possa ficar com ele. A questão é que existem casos em que não há ninguém da família. O caso dos meninos ameaçados de Londrina é sério porque o número de atendimentos é alto. Alguma coisa precisa ser feita'', disse.
A promotora da Vara da Infância e Juventude, Edina Maria de Paula, confirmou que a situação é crítica. Segundo ela, os números registrados nos Conselhos Tutelares não revelam a verdadeira demanda. ''Na grande maioria dos casos, meninos ligados ao tráfico de drogas sofrem algum tipo de ameaça. O grande problema que enfrentamos é que normalmente nem eles próprios acreditam na ameaça. A cidade precisaria contar com um abrigo de passagem, onde esses meninos ameaçados pudessem ser levados até que alguém da família fosse localizada'', disse.
Ainda segundo a promotora, o problema deveria ser solucionado por meio de intervenções do Estado e que, em casos como esses, o município não tem muito o que fazer. ''O máximo que a prefeitura pode fazer é providenciar uma passagem para esse menino sair da cidade. Não se pode ter um lugar para abrigar os ameaçados pois colocaríamos os demais abrigados em risco também. Essa é uma questão muito difícil de ser revolvida. O que fazemos hoje é articular algum meio de encontrar familiares que moram em bairros afastados da casa do menino ou até mesmo em outras cidades'', explicou.
Para a promotora, a demanda de casos envolvendo crianças e adolescentes em risco social e pessoal é tão grande, que seria necessário mais vagas em abrigos. ''Sabemos que existem alguns procedimentos em que se pensa no abrigo como primeira medida, o que não é certo. O abrigo deve ser a última medida pois deve-se pensar, primeiro, em todas as possibilidades para que o adolescente possa ficar no convívio familiar. No entanto, atualmente temos dificuldade de encontrar vagas mesmo para os casos que realmente necessitam de abrigamento''.

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