A Secretaria de Assistência Social tem mapeados 23 mocós em Londrina; a maioria fica na região central
A Secretaria de Assistência Social tem mapeados 23 mocós em Londrina; a maioria fica na região central | Foto: Fotos: Gina Mardones



A Secretaria Municipal de Assistência Social tem mapeados 23 mocós em Londrina. A maioria deles fica na região central da cidade, mas nos bairros também há imóveis abandonados usados como moradia ou ponto de encontro por pessoas em situação de rua. As equipes de abordagem do município e membros de instituições religiosas fazem visitas constantes a essa população, que é encaminhada a serviços especializados conforme suas necessidades, e entregam doações, especialmente de alimentos. Mas erradicar o problema é mais uma questão de saúde do que de ação social.

Maria de Oliveira Cunha, de 35 anos, morava em Goioerê (Centro-Oeste) e quando decidiu vir para Londrina foi morar com o pai, no Jardim São Rafael (zona leste), mas um tempo depois deixou o lar para morar na rua. Há alguns anos vive em um barraco na Avenida Martiniano do Valle Filho, atrás do Boulevard Londrina Shopping. No local, vivem também outras três pessoas, todos os quatro, dependentes químicos. Maria é usuária de crack. "Já passei muita dificuldade por morar na rua, mas com o que ganho não tem jeito de morar em outro local. Não consigo pagar aluguel", contou ela, que não tem renda regular e o pouco de dinheiro que recebe vem de alguns trabalhos como diarista que consegue "de vez em quando". "Acho que só a mão de Deus para tirar a gente dessa vida."

"A gente, na rua, recebe mais ajuda da iniciativa privada do que do poder público. Tem os irmãos que vêm e dão comida para a gente, nos auxiliam", disse Lucas Bechelli de Oliveira, 29, referenciado na Associação Projeto Pão da Vida, que acolhe pessoas em situação de rua. Ele intercala períodos na rua com períodos em que passa abrigado. Na semana passada, ele andava sem rumo certo.

Os imóveis são usados como moradia ou ponto de encontro
Os imóveis são usados como moradia ou ponto de encontro



Deixou o abrigo no domingo (12) depois de exceder no uso do crack. "Noventa e oito por cento dos moradores de rua são dependentes de alguma coisa", atesta.

Lucas vive nas ruas há cerca de 13 anos, desde que perdeu a mãe. Há quatro anos conseguiu se livrar das drogas por um tempo, mas teve uma recaída. O rapaz lamenta o que deixou para trás. Completou o ensino médio, já teve vários empregos, fala inglês fluentemente e "um pouco de castelhano". Nos períodos em que consegue controlar o vício, tenta mudar de vida, inicia cursos de capacitação, mas o crack sempre fala mais alto. "O problema do dependente químico é que ele é um cristal quebrado. Você não remonta mais. Tomo quatro tipos de remédio por dia, mas é difícil. A prefeitura poderia investir mais no Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas). A gente não é menos do que ninguém. A gente só tem mais dificuldade para lidar com os próprios problemas. Hoje eu entendo que o que eu vivo é consequência das minhas escolhas." (Leia mais na pág.2)

‘A questão não é só a falta de vagas’
O município mantém parceria com algumas instituições que acolhem moradores de rua, mas o total de vagas para atender a demanda é insuficiente, não chega a 100, e na avaliação da coordenadora do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), Lucinéia Maria Ribeiro, o problema vai além da escassez de vagas nos abrigos. Psicóloga que há mais de dez anos atende pacientes que fazem uso de drogas psicoativas, Lucinéia lembra que essas pessoas não costumam permanecer por muito tempo abrigadas.

"A questão não é só a falta de vagas. A falta de vagas existe, mas enquanto essas pessoas não forem tratadas minimamente, elas não darão conta (de mudar de vida). Elas precisam de tratamento. Enquanto elas não conseguirem acesso a um tratamento de saúde mental e tratar onde (o vício) ‘pega’, a assistência social não vai resolver o problema", declarou Lucinéia. "Se os dependentes químicos não liberam o seu organismo da fissura do uso, os nossos encaminhamentos (assistência social) acabam perdendo a efetividade."

Marcelo, de 36 anos, entende bem o que Lucinéia diz. Ele já esteve internado por duas vezes em uma clínica de reabilitação em Rolândia (Região Metropolitana de Londrina) para tentar se livrar da dependência do crack, mas a luta ainda não chegou ao fim. Até pouco tempo atrás ele vivia em Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro), mas após separar-se da esposa, veio para Londrina e passou a viver em um mocó na Avenida Dez de Dezembro, próximo ao Terminal Rodoviário, onde já funcionou um posto de combustíveis. "Vivo de fazer alguns bicos, trabalho na Ceasa, mas estou conversando com minha ex-mulher e talvez a gente volte a viver junto em Santo Antônio da Platina", planeja. (S.S.)

Consultório na Rua existe desde 2012
Coordenadora do Consultório na Rua, programa criado pelo governo federal e administrado pela Secretaria Municipal de Saúde, Jucelei Pascoal Boaretto explica que o objetivo é fazer uma ponte entre a unidade básica de saúde e o morador de rua, que recebe atendimento no local onde vive. Com o trabalho constante, afirma a coordenadora, cria-se um vínculo entre os profissionais e a população assistida que, com o tempo, pode despertar para sair da condição de vulnerabilidade.

O Consultório na Rua funciona em Londrina desde agosto de 2012 e o trabalho é intersetorial. Segundo Jucelei, além dos atendimentos em saúde, as equipes também fazem os encaminhamentos de acordo com as necessidades de cada um, que podem ser desde um banho no Centro POP até a indicação para dar entrada em documentos pessoais ou iniciar um tratamento contra a dependência química.

Todas as sextas-feiras, uma equipe do programa também realiza atendimentos no Centro POP. "Depois que cria o vínculo, a gente consegue adesão ao tratamento. Ninguém vai para a rua porque quer. A pessoa vai para a rua porque perde o vínculo com a família, então como você vai chegar e falar de valores para essa pessoa? Ela já está desinstituída de si mesma", analisou a coordenadora. "A pessoa vai escolher a hora de sair da situação de rua."

O programa hoje funciona com três profissionais de nível técnico e dois de nível superior, um a menos que o necessário. Além da enfermeira e da psicóloga, a equipe deveria contar com um assistente social, mas por falta de pessoal a equipe segue desfalcada. "Para o Centro POP, falta uma equipe de enfermagem para fazer a triagem no dia a dia. A gente faz o melhor com o que a gente tem", diz Jucelei. (S.S.)

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