Milton DóriaA postosDos 86 alunos que compareceram ao primeiro dia de aula, muitos não sabiam como voltariam para casaApenas 20% das crianças que fazem parte da Guarda Mirim de Londrina compareceram ontem à sede da entidade, no bairro Aeroporto (zona leste), para assistir as aulas. A baixa frequência deve-se à interrupção do fornecimento de passes de ônibus pela empresa Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) para 11 entidades assistenciais da cidade, entre elas a Guarda Mirim.
Dos 394 meninos cadastrados na Guarda Mirim, apenas 86 compareceram à aula ontem de manhã. Foi o primeiro dia de retorno às atividades depois de quase um mês de interrupção devido, justamente, à falta de passes de ônibus. A presidente da entidade, Cristina Mesquita Barros, diz que os meninos não têm condição de arcar com o custo do transporte. Ela lembra que são crianças carentes, moradores não só de Londrina, mas também de outras cidades da região. Cristina também preside o Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar) em Londrina.
A presidente da Guarda Mirim comenta que os menores foram chamados através de emissoras de rádio e também pelo telefone para voltarem às atividades ontem. ‘‘Nós pedimos a compreensão dos pais para que, nestes primeiros dias, pagassem o ônibus para as crianças. Mas a grande maioria não tem dinheiro’’, diz a presidente. E entre os 86 menores que estavam ontem na sede da Guarda Mirim, 10 não tinham dinheiro para voltar para casa de ônibus.
Cristina Barros explica que a entidade resolveu retornar as atividades ontem para que os meninos não fiquem muito tempo parados. ‘‘Caso contrário, eles podem desanimar e deixar de frequentar a Guarda Mirim’’, justifica. Ela lembra que as aulas começaram no dia 30 de janeiro, mas foram interrompidas em fevereiro, quando a Secretaria Municipal de Ação Social deixou de enviar os passes gratuitos.
Júlio César Pereira, 14 anos, frequenta a Guarda Mirim há um ano e diz que se o problema não for resolvido, terá que abandonar a entidade. Ele mora em Cambé, cursa a 5ª série e alega que os pais não têm dinheiro para pagar o ônibus. O mesmo acontece com Cleverson Aparecido de Andrade, 15 anos, morador do conjunto Luis de Sá (zona norte de Londrina). Quem deu dinheiro para ele retornar à Guarda Mirim ontem foi a irmã. ‘‘Pagar o passe com dinheiro da gente é muito difícil’’, reclama o garoto, que cursa a 8ª série. Edvaldo Paulinho da Silva, de 15 anos, diz que se a situação atual continuar, ele poderá vir às aulas da Guarda Mirim apenas uma vez por semana.
A entidade existe em Londrina desde 1965 com o objetivo de atender meninos carentes na idade entre 12 e 17 anos. Os garotos permanecem um período na entidade, onde além de almoço e lanche, têm cursos profissionalizantes e reforço escolar. A Guarda Mirim também se encarrega de encaminhá-los para estágio remunerado em empresas filiadas ao programa.
A interrupção no fornecimento de passes aconteceu porque as 11 entidades não estão amparadas pela lei de gratuidade do sistema de transporte coletivo de Londrina. Para tentar resolver rapidamente esta situação, um grupo de vereadores apresentou ontem à tarde, na Câmara, projeto propondo alteração no artigo 36 da Lei 5.496, de julho de 96, que trata das isenções do transporte coletivo.
A idéia dos vereadores Elza Correia (sem partido), Salvador Francisco (PSDB), Antônio Ursi (PT) e Beto Scaff (PSDB) é incluir na lei as entidades assistenciais que atendem crianças e adolescentes em regime de profissionalização e proteção especial e que estejam cadastradas no Conselho Municipal da Criança e do Adolescente. O projeto foi apresentado em caráter de urgência e aprovado ontem em primeira votação. Elza Correia acredita que em uma semana ele já esteja definitivamente aprovado pela Câmara. (Veja matéria sobre a votação nesta página).
Além da Guarda Mirim, ficaram sem transporte coletivo gratuito a Epesmel, Casa do Caminho, Cemic, Liga dos Engraxates de Londrina, Centro Ocupacional de Londrina, Centro Social Urbano, Crencri, Secretaria Municipal de Educação (projeto psicopedagógico), Igreja Presbiteriana de Londrina e Núcleo de Apoio Psicossocial (Naps).

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