Dentro de um barracão, alheio ao barulho do trânsito intenso da Rua Bahia (Região Central de Londrina), e bem no final da manhã, um homem dorme. É difícil distingui-lo no meio de um monte de lixo e mosquitos. O barracão, anteriormente um depósito de lixo reciclável, foi incendiado há algumas semanas, mas o que não foi queimado ainda cobre toda a extensão do local. Na parede, alguém escreveu a giz: ''favor não mexa. Não aseitamo (sic)''.
Minutos depois, no Jardim Nossa Senhora da Paz (Zona Oeste), duas mulheres sentam-se na calçada, ao lado de uma obra inacabada coberta de mato. Um carro pára e pega uma delas, enquanto a outra permanece manuseando algum objeto. A reportagem se aproxima e verifica tratar-se de uma espécie de cachimbo, geralmente usado para consumir drogas. Em meio a respostas evasivas e confusas, a mulher revela já ter dormido nessa construção ao lado ''quando precisou'', sem se importar com a falta de teto ou de chão. Ela tem as roupas sujas, o cabelo desgrenhado e feridas nos lábios.
A falta de asseio e cuidado pessoal é uma das características comuns a pessoas que optam por viver nas ruas. É como se ''detalhes'' como esses não tivessem a menor importância. Mas o que será que tem importância para esses andarilhos? O que os faz preferir a precariedade das ruas a um abrigo?
Talvez seja justamente a falta dessa resposta que os leva a optar por esse tipo de vida. Sem nada que considerem importante e pelo qual valeria a pena zelar, eles abandonam a si mesmos nas ruas.
Segundo Sandra Coelho, gerente de média complexidade da Secretaria de Assistência Social, são vários os fatores que levam alguém a se tornar morador de rua, como a pobreza, o envolvimento com álcool e drogas, as relações familiares e até a saúde mental - e tudo isso resulta na perda de vínculos com a sociedade. ''Todos esses fatores dificultam o processo de recuperação do projeto de vida. E nós, através do programa Sinal Verde, trabalhamos para que a pessoa passe a desejar buscar outra opção de vida'', explica Sandra, lembrando que o trabalho do Sinal Verde não é coercitivo nem punitivo.
Ela acrescenta que, dependendo da intensidade desses fatores e do tempo vivido nas ruas, a reinserção social é ainda mais difícil. Por isso, para tirar alguém de um mocó, geralmente é necessário um paciente trabalho de reestabelecimento de vínculos. O Sinal Verde vem investindo principalmente em um trabalho preventivo, com abordagens solicitadas pela comunidade ou programadas, em áreas já conhecidas.
Mas o trabalho preventivo jamais terá fim se não vier aliado a políticas públicas de inclusão, evitando que as pessoas saiam de casa para ir para as ruas. Segundo Sandra, são atendidos em média quatro novos casos por dia, a maioria proveniente de outros Estados e até de países vizinhos.

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