Sem medo de estabelecer limites
Crianças são diferentes, ressalta o psicanalista Ailton Bastos, e por isso numa mesma casa, dois irmãos podem interpretar determinada cena de maneira diversa, por exemplo. O mesmo acontece com relação à percepção dos pais ao conteúdo dos programas de tv. ''A análise deve ser individual, é como você vê o fato.''
Para o psicanalista, por mais violento que seja um desenho, o noticiário é mais ameaçador. ''Há casos em que a criança reconhece que a cena é uma fantasia, como nos desenhos e alguns filmes, mas nas novelas, apesar de saber que é ficção, o jovem percebe que a cena é muito parecida com a realidade dele, fator que pode gerar conflito e insegurança'', argumenta Bastos.
Segundo ele, os jovens se identificam com programas de conteúdo policial, assim como os adultos, por causa da linha tênue entre a ameaça que assusta e o prazer. ''Se conheço, me protejo'', justifica o psicanalista.
Hoje, assinala Bastos, os pais negligenciam até mesmo a censura imposta pelas emissoras de televisão, ''o que eu vejo como imprudente'', diz. ''Há uma desistência em dizer não, em estabelecer limites. Vale a pena conversar com a criança e saber por que ela gosta de determinado desenho, filme'', sugere.
Para Bastos, a mídia não é a vilã da história. ''O sofrimento humano, a violência doméstica é mais palpável em determinados programas. Mas é só na adolescência que o jovem passa a discernir que o bem e o mal, na verdade, são valores sempre muito próximos nas relações humanas.''
''Os pais precisam ensinar aos filhos o prazer da espera'', completa o psicanalista. Conforme ele, o papel da escola deve ser indireto, de identificar comportamentos agressivos e investigar se são ou não resultado da superexposição à cenas violentas.
''Os pais terceirizam a responsabilidade de cuidado e orientação dos filhos e a televisão é hoje uma babá eletrônica. Mas é preciso que eles assumam a responsabilidade. Vale a pena repensar as prioridades da família e assumir a educação dos próprios filhos'', opina.
Os cuidadores, sejam eles babás, avós, tios, devem seguir a linguagem estabelecida pelos pais, ensina Ailton Bastos. ''A autoridade é dos pais, eles apenas emprestam para os cuidadores.''
Para o psicanalista, os pais precisam conversar com os filhos, ver o que as crianças estão assitindo na tevê, jogar videogame e, principalmente, ''não ter medo de estabelecer limites.'' (M.G.)





