Sem limite de idade para dirigir
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Marian Trigueiros<br>Especial para a FOLHA 
Cinquenta anos atrás, a expectativa de vida do brasileiro não passava dos 40 anos. Em 2005, a média de idade subiu para 71,8, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E a cada ano se torna mais expressivo o crescimento da população acima dos 65 anos. O número de motoristas idosos também vem aumentando significativamente. De acordo com o Departamento de Trânsito do Paraná (Detran/PR), até junho deste ano, foi registrado um total de 3,5 milhões de condutores em todas as categorias no estado, sendo 554.286 com mais de 55 anos. Somente em Londrina são 38.124 motoristas dessa faixa do total de 220.747 condutores.
Paulino Pereira de Souza, 71 anos, faz parte do grupo de motoristas da terceira idade. ''Dirijo muito bem, melhor que muitos jovens por aí que não respeitam as leis de trânsito e muito menos os pedestres. Quando achar que não tenho mais condições, eu vou parar'', garante o motorista aposentado.
Ele conta que sempre prestou muita atenção, mas hoje dirige com mais responsabilidade. ''Nunca sofri preconceito por causa da idade. E se alguém falar algo, nem olho dos lados. Ando sempre concentrado, na velocidade permitida'', ressalta. E a disposição do aposentado se confirma: ''Há pouco tempo fui dirigindo para Salvador. Ainda levei minha esposa e meu filho''.
Dono de uma vitalidade de poucos, Ricardo Macchiaffava, 79 anos, também faz parte do grupo ativo de motoristas mais velhos. O técnico sênior aposentado lembra que já viajou muito quando trabalhava. ''Dirigia por todo esse Norte Pioneiro fazendo manutenção nas sub-estações de energia. E as estradas eram todas de terra.''
Ele diz que gosta muito de dirigir, mas que os tempos mudaram e o trânsito é outro. ''Vejo muito imprudência, jovens cometendo irregularidades a todo o momento. Quando se é mais novo, existe uma euforia em dirigir. Depois que amadurece, você vê de uma maneira mais responsável.'' Para ele, os motoristas são muito impacientes e despreparados. ''Não dirijo devagar, mas sim dentro da velocidade permitida. Os outros motoristas que andam correndo além da conta'', argumenta. Quando pode, Macchiaffava vai a pé aos lugares. ''Hoje, há muitos carros na rua e engarrafamento. Se puder evito e vou andando.''
Macchiaffava conta que tem glaucoma, mas garante enxergar bem e ter um ótimo reflexo. ''Quando eu perceber que não dá mais, que não tenho condições, com certeza vou parar'', afirma.
Liberdade
Para superar as dificuldades, Adolpho Vidotti, de 83 anos, tem cuidados extras na direção. ''Tem que observar muito, ter cuidado com a sinalização. E o mais importante, que sempre digo à minha esposa: não converse com o motorista.'' Segundo Vidotto, a maioria dos motoristas não tem paciência com pessoas mais velhas no transito. ''Eles gritam para eu sair da frente e até xingam.''
Recentemente, ele levou um susto em uma colisão com um motociclista. ''Faz dois anos que estou parando de dirigir. Além de cansar mais, minha memória falha e a visão e a audição não estão mais como anos atrás. Depois desse acidente fiquei com medo de continuar'', lamenta. Para Vidotti, parar de dirigir é como perder vida. ''Quando mais novo, dirigia para São Paulo, Mato Grosso, Brasília visitando as propriedades. Agora, no máximo vou às cidades daqui da região. O pior de parar de dirigir é perder a liberdade. Não gosto de depender dos outros'', desabafa.


