Sem identificação, corpos viram números
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quarta-feira, 23 de julho de 2008
Fernanda Borges<br>Reportagem Local 
Pelo menos uma vez por mês a cena se repete no Cemitério Jardim da Saudade, na Zona Norte de Londrina. Rumo à cova rasa, pedreiro e motorista da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf) seguem o ''cortejo'' para sepultar uma pessoa que não fazem idéia de quem seja. Somente eles participam do enterro, que acontece sem velório, flores, homenagens, nem lágrimas de familiares. Os corpos não identificados pelo Instituto Médico Legal (IML) de Londrina nem ao menos chegam a passar pela Acesf: saem das geladeiras do instituto direto para a sepultura.
O Jardim da Saudade é o único cemitério com vagas para os ignorados ou indigentes, como alguns costumam chamar. Em quatro anos a Acesf registrou 30 sepultamentos de ignorados. ''Eles chegam aqui em caixões simples, lacrados e prontos para ser enterrados. O procedimento é rápido porque não tem ninguém que queira falar alguma coisa a respeito da pessoa. A gente acostuma com o tempo, mas no começo eu ficava sensibilizado pela situação'', comentou Rogério Retieri, que trabalha há 16 anos como pedreiro no Jardim da Saudade.
No último dia 6 Retieri sepultou o corpo de um homem encontrado morto. Quadra 176, sepultura 34-A: é assim que ele é identificado. Como já estava em estado de decomposição, o sepultamento aconteceu antes do prazo legal de 30 dias de permanência no IML. ''Em casos como esses, não temos como deixar o corpo na geladeira. Recolhemos todos os materiais para exames de reconhecimento e o corpo é enterrado como ignorado, até que seja confirmada a identidade da pessoa'', explicou o diretor administrativo do IML de Londrina, Fernando Piccinin.
Segundo ele a maioria é vítima de morte violenta, como homicídios e acidentes de trânsito. Quando ocorre morte natural, há a possibilidade do corpo ser destinado a uma universidade para pesquisas. ''As pessoas ficam chocadas, mas costumo falar que quando uma pessoa morre, mesmo que seja por morte natural, o corpo pertence ao Estado. Se houve morte violenta esse corpo deve ser enterrado porque pode integrar um procedimento de investigação - se for necessário, ainda pode ser exumado. Já os que vão para a universidade ficam por cerca de seis meses no formol aguardando um possível reconhecimento de familiares antes de se tornar objeto de estudo.''
Piccinin afirma que todo sepultamento é feito de forma digna. ''Tanto os que saem das instituições de ensino após alguns anos de pesquisa e o ignorado que permaneceu no IML são sepultados dignamente. O município providencia e arca com todas as despesas'', comentou.
Para os trabalhadores do cemitério, não há diferença alguma entre ignorado, identificado, rico ou pobre. Para o pedreiro do Jardim da Saudade, ''a quantidade de tijolos usados será a mesma para todo mundo.'' ''Sabemos que estamos enterrando alguém que ninguém sabe quem é, mas o nosso serviço tem que ser feito. Mesmo assim, ficamos sabendo que há pessoas que aparecem aqui no cemitério e acendem velas no cruzeiro para essas pessoas, sabendo que foram enterrados sem nenhuma oração ou homenagem. Esta é uma iniciativa muito legal'', finalizou.


