Sid Sauer
De Campo Mourão
Mais de 40 ofícios pedindo laudos médicos estão paralisados no Instituto Médico-Legal (IML) de Campo Mourão. Até o final do mês, esse número deverá chegar a 150. É que o único funcionário do órgão, o auxiliar de necropsia Milton Scheibel, entrou em férias e não há quem o substitua. ‘‘Vou encontrar um caos quando voltar’’, prevê. As férias de Scheibel são ‘‘pela metade’’, uma vez que ele vai continuar realizando os exames cadavéricos.
‘‘Só estou tirando férias da papelada que nem é função minha’’, frisa Scheibel. ‘‘Trata-se de uma função burocrática que deveria ser feita por um funcionário administrativo’’. Com as ‘‘férias’’ do auxiliar de necropsia, só restou no IML a zeladora Sebastiana Valdemira Cabral, que é contratada por uma empresa terceirizada. Ela é quem vai chamar Scheibel para os exames toda vez que um cadáver chegar ao órgão.
Segundo Scheibel, um único funcionário para cuidar da parte burocrática já seria suficiente para tranquilizar o trabalho no local. ‘‘Eu ficaria só com a parte médica’’, explica. O IML de Campo Mourão atende quase 30 municípios da região e recebe, em média, quatro pedidos de laudos por dia. Para complicar ainda mais a situação, cidades subordinadas a outros IMLs estão enviando casos para o instituto de Campo Mourão.
‘‘Não sei o que está acontecendo’’, frisa Scheibel. Esta semana ele chegou a atender o corpo de uma pessoa morta em Umuarama. ‘‘A delegacia de lá mandou para cá e tive que atender’’, diz o auxiliar de necropsia. Antes, ele já tinha atendido corpos de Iporã, Andradina e Cruzeiro do Oeste, além de Nova Tebas, Pitanga e Mato Rico, estes já na região do IML de Guarapuava. ‘‘Acabamos atendendo em respeito à família’’, conta Scheibel.
O funcionário do IML diz que o último corpo que atendeu de Nova Tebas já estava morto havia quase 48 horas. ‘‘Como é que vamos mandar embora um corpo desses?’, indaga Scheibel. ‘‘A família só falta pedir de joelhos para que o atendimento seja feito’’. O IML de Campo Mourão só não deixou de funcionar no ano passado porque as duas funerárias da cidade vêm pagando o salário de um dos médicos-legistas.
‘‘Não entendo como um órgão tão fundamental para o andamento da Justiça fica esquecido’’, queixa-se Scheibel. ‘‘Enquanto um laudo não sai, o processo fica parado’’, exemplifica. Ele conta que há poucos dias foi procurado por um promotor que precisava de um laudo com urgência. ‘‘Um homem acusado de estuprar uma criança, mesmo tendo confessado, seria solto se o laudo não chegasse à Justiça naquele dia’’, conta Scheibel.

mockup