Sem eletricidade, marceneiro cata papel para sobreviver
Jogo de mesa e quatro cadeiras: R$ 120,00. Banqueta: R$ 7,00. Não falta mercado para estes e outros produtos de uma pequena marcenaria de fundo de quintal do Jardim Leste-Oeste (Zona Oeste), em Londrina. ''Não é para me gabar, mas tenho minha freguesia. Vendo para rede de loja de móveis e tenho comprador até em Cambé, Ibiporã. Meu trabalho é caprichado'', avisa José Carlos Gonçalves dos Santos, 54 anos, o marceneiro que a cada movimento enfrenta fortes dores na coluna e na altura dos rins.
Se as costas não param de doer e se as encomendas vão se sucedendo no ritmo almejado por qualquer pequeno estabelecimento, Santos ao lado da mulher Ana Maria Garcia, 50 anos, da filha Ana Carolina, 10, e de seu único funcionário, o vendedor Mateus de Freitas Souza, 17 enfrenta um adversário invencível: a falta de energia elétrica.
Há seis meses, a lixadeira, o compressor, a serra circular e a furadeira, que compõem a fabriqueta, estão silenciosas. Calotes consecutivos de compradores resultaram em um prejuízo de R$ 5 mil e acabaram descapitalizando o casal.
A tarifa de energia (cujo valor médio era de R$ 250,00) deixou de ser paga. A dívida com a Copel, incluindo os consumos doméstico e industrial, já alcançou R$ 2,8 mil. ''Já tentei de tudo para conseguir um local alternativo enquanto não consigo resolver este problema, mas os aluguéis são muito caros'', justifica. ''Não temos dinheiro e não temos como conseguir porque não compramos a prestação e não conseguimos fiador'', lamenta Ana Maria.
''Estou tendo que andar oito quilômetros todos os dias porque não tenho dinheiro para pegar o ônibus'', reclama Mateus, o jovem funcionário que controla as encomendas e negocia um prazo maior de entrega, já que agora as peças têm que ser feitas manualmente.
Desde que a situação se tornou dramática, Santos, Ana Maria e Ana Carolina emprestaram um carrinho no ferro-velho e saíram às ruas para catar papel. Conseguem R$ 3,00 por dia e vão comprar comida. Dizem que é para não morrer de fome.
Santos tem planos de criar um projeto social no Leste-Oeste, uma porção da cidade que já foi chamada de favela. Ele está decidido a montar uma escola-oficina, ensinar a transformar madeira bruta em dinheiro. ''O que preciso é de uma ajuda para sair desta situação''. A mulher completa: ''Se conseguirmos ter a energia de volta, conseguiremos quitar a dívida logo'', garante.
Na verdade, a família tem um histórico complicado com a empresa fornecedora de energia. São reincidentes em parcelar dívidas, pagar a primeira parcela e não saldar as restantes. Houve cortes consecutivos da Copel e instalação de gambiarra (conexão clandestina com a rede) por duas vezes, segundo consulta ao sistema feita pelo superintendente regional, Roberley Henry Luppi Savariego.
No total, a família terá que desembolsar R$ 900,00 de entrada e seis parcelas de R$ 334,24, relativa às duas contas. Enquanto a dívida cresce, Ana Carolina tenta esquecer os programas infantis de TV que tanto gostava e vai acender uma vela para continuar estudando. E dona Ana Maria vai continuar a lamentar o leite azedo e a assistir Gugu e Faustão no vizinho.
(L.F.M.)





