Sem-dono
Podemos até imaginar que um animalzinho parecido acompanhava Mao Tsé Tung, quando começou a Grande Marcha e ganhou impulso a revolução chinesa. Contudo, mesmo um hipotético cãozinho da China, amigo de Mao, não entenderia nada sobre páginas da história, ficaria triste ao ser esquecido. É o caso do cachorro encontrado só na fazenda Borborema, tímido protagonista da foto acima. Até não seria absurdo chamá-lo de fiel escudeiro do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, se o pequeno cão, sem-pêlo e sem-força, fosse capaz de escudar alguém, proteger ou atacar os personagens humanos que escrevem a história da luta no campo. O minúsculo cão é apenas observador do conflito e dos dramas sociais. Testemunha da pobreza e da ação. Ouvidor da troca de denúncias. Farejador do sangue empenhado. Sem voz e sem voto nas assembléias. Às palavras de ordem e às argumentações ritmadas pela ideologia, ele só tem a acrescentar um fraco latido. Passeia, com medo e instinto de auto-preservação, pelos dois lados da cerca, por ambos os lados da barraca, de dia e de noite, perto da casa de alvenaria e debaixo da lona. Mas é condicionado por idéias que não sabe ter: ultrapassa os limites das fazendas, desconsidera relações de posse, ignora as avaliações de produtividade, não dá bola para os técnicos do Incra, mas sabe latir para um ou outro estranho, uniformizado ou não. Ele é a antítese do cachorro de madame. O cão dos sem-terra, ao contrário dos seres falantes que acompanha, não sabe nem o que é reforma agrária. Bicho de ocupação, só está certo de que não tem dono. É socializado e amigo da coletividade. Deixado só no acampamento, espera que os companheiros voltem para buscá-lo. À cata da próxima refeição, sobrevive sem pensar no futuro. Há quem pense.
(Paulo Briguet)





