Érika Pelegrino
De Londrina
O agricultor Nelson Anacleto, de Bandeirantes (Norte do Estado), foi preso no último dia 19 depois de tentar matar a mulher, Sebastiana Antunes Anacleto. Sebastiana contou à polícia que o marido ficou irritado porque ela deixou queimar os pães que assava em uma fornalha na chácara onde o casal mora. Anacleto quis obrigar a mulher a comer os pães queimados. Sebastiana se recusou e ele passou a agredi-la e ameaçá-la de morte. O desfecho poderia ser trágico, como mostram outros casos que ocorreram em setembro (veja quadro nesta página).
Companheiros que agridem e até matam suas companheiras. Mulheres que matam seus maridos. O que leva os casais a cometer atos insanos? Uma pesquisa que se transformou em projeto de extensão no segundo semestre deste ano abre espaço para se discutir a violência doméstica, desenvolver a auto-estima, fortalecer o lado psicológico e finalmente encontrar uma solução para o problema.
A docente do departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mari Nilza Ferrari de Barros, trabalha com violência doméstica desde 1998.
Segundo ela, independente do agressor ser homem ou mulher um dos fatores que gera este tipo de violência é o fato de que ‘‘os relacionamentos hoje em dia estão baseados na ausência de diálogo’’. Coisas pequenas do dia-a-dia não são conversadas com o companheiro ou companheira, acabam gerando um acúmulo de mágoas e ressentimentos que desemboca na agressão. ‘‘Têm situações em que no contexto imediato não há nada que justifique a violência, nenhum elemento objetivo’’, afirma.
Um exemplo é a violência psicológica contra a mulher praticada diariamente, segundo a docente, através de ofensas verbais – ‘‘você é prostituta, é uma péssima mãe, não sabe cuidar da casa, está gorda como uma porca’’. Ofensas que são muitas vezes ouvidas e caladas.
Outro dado levantado por Mari de Barros é a falta de clareza sobre aquilo que nos incomoda. ‘‘E quando temos esta clareza muitas vezes não sabemos como lidar com o que está nos incomodando. Como a violência é o modelo mais presente, acaba sendo utilizado’’, analisa.
Ela conclui que o ser humano precisa aprender a expressar as suas emoções. ‘‘Numa coisa que somos muito incompetentes é na expressividade da emoção’’. Outro fator observado pela docente como promovedor da violência doméstica é uma história de violência vivida na infância – pais que batiam muito nos filhos – ou abuso sexual no início da adolescência.
Estes tipos de experiência provocam ressentimentos que na fase adulta são transferidos em forma de agressão contra aquele que está mais próximo e é mais frágil. A violência vivida na infância também acaba sendo um modelo reproduzido mais tarde – ‘‘o homem é aquele que é mais forte e que consegue o que quer através da força física ou psicológica’’. No caso das mulheres agredidas, muitas vezes, elas transferem toda a mágoa e ressentimento do marido para os filhos, maltratando-os.
Se compararmos com algumas décadas anteriores, segundo a docente, hoje a mulher tem sido mais agressora. Ao conquistar o espaço público, antes restrito aos homens, ela se sentiu mais forte e mais segura. Se no mercado de trabalha ela compete em nível de igualdade, às vezes até ganhando mais que o homem, num caso de agressão doméstica ela vai reagir também em pé de igualdade, de acordo com Mari de Barros. Mesmo assim de acordo com suas pesquisas grande parte das agressões entre casais parte do homem.
As mudanças no espaço público foram muitas e aconteceram rapidamente, já no espaço privado foram tímidas. ‘‘Isto desnorteou o homem, ele está sem referencial. A mulher invadiu o espaço do homem – espaço público – e não deixou que ele entrasse no seu espaço, o da casa’’, explica.
A docente afirma que enquanto o homem está lidando em igualdade com a mulher no mercado de trabalho, ele não está conseguindo entrar no terreno da afetividade dentro de casa. ‘‘O espaço doméstico sempre foi o espaço da afetividade, e sempre foi dominado pela mulher’’.
A docente afirma que, no fundo, a mulher reclama daquilo que ela mesma produz. ‘‘Ela cobra que o homem divida as atividades domésticas com ela, por exemplo. Quando ele se dispõe a isto, ela o critica dizendo que ele não sabe fazer’’, exemplifica. ‘‘A mulher não o estimula naquilo que na verdade não é experiência dele e que quando tem oportunidade mostra que é capaz de fazer e muitas vezes com mais competência que a mulher’’, diz.
Para Mari de Barros, ao mesmo tempo que a mulher cobra a divisão de tarefas ela resiste. ‘‘A violência doméstica não é um fato novo. Existe desde a antiguidade até os dias de hoje, apenas muda a sua forma de expressão de acordo com a época e a sociedade’’, diz.‘‘Hoje a violência doméstica não está restrita a casais. Há filhos que batem em pais, pais que violentam seus filhos’’, afirma.
A grande dificuldade de se denunciar este tipo de violência é devido ao mito de que a família é um ambiente de segurança, conforto e afeto. Como admitir que é dentro deste ambiente que muitas vezes se produz a violência? No caso da mulher ela ainda carrega a culpa que considerável parte da sociedade lhe incute: ‘‘Se está apanhando é porque fez alguma coisa’’.Pequenas desavenças do dia-a-dia que não são objeto de conversa civilizada podem gerar acúmulo de ressentimentos e agressões
ESTRANHAS EMOÇÕESMari Nilza Ferrari de Barros: ‘‘Falta-nos clareza sobre o que nos incomoda e jeito para lidar com o que nos incomoda’’

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