Os consumidores de CDs piratas não tiveram nem tempo de descobrir que ainda havia produtos do gênero sendo vendidos na cidade. Depois da proibição que atingiu o Shopping Popular (Região Central), no início do mês, ontem foi a vez de os comerciantes do Camelódromo da Rua São Vicente, também na área central, encaixotarem os CDs de música. No local, quatro bancas ainda vendiam esse tipo de mercadoria. A determinação partiu da Promotoria de Investigações Criminais (PIC), órgão ligado ao Ministério Público.
O prejuízo foi total para o camelô Alessandro Santos, 30 anos, que vivia exclusivamente da venda de CDs. Ontem, sua reação era de desespero e resignação ao mesmo tempo. ''Eles (PIC) até foram bacanas, deixaram a gente retirar a mercadoria. Mas agora estou perdido, vou ter que fechar a banca e procurar outro serviço. Camelô, nunca mais'', afirmou, depois de uma década trabalhando como ambulante. Pai de três filhos, Santos se diz atolado em dívidas, incluindo um aparelho de som no valor de R$ 1 mil, comprado para tocar CDs para os clientes.
Euza da Silva Morais, 43, foi bem menos afetada pela proibição, já que diversificou suas mercadorias. A comerciante ressaltou, contudo, que os CDs eram mais lucrativos e atraíam consumidores para o pequeno camelódromo, inaugurado há três meses. Gente como o aposentado Hélio Timóteo, que ontem aproveitou para comprar seu último CD. ''Pobre não tem 20 contos para dar num CD original'', justificou. E o que os camelôs farão com o estoque de CDs? ''O jeito vai ser dar para os parentes. Vou deixar a caixa lá em casa e, quem quiser, leva'', diz o camelô Aparecido Ferreira Durães, 39, diante de 600 CDs encalhados.
No Shopping Popular, onde a venda de CDs piratas foi encerrada há 22 dias, os comerciantes ainda tentam recuperar os negócios. Bancas de DVDs, fitas VHS e jogos produtos igualmente pirateados não foram afetadas (leia texto ao lado). Segundo o presidente da ONG Canaã, que representa os camelôs, Ulisses Sabino Nogueira, das 38 bancas que fecharam logo após a proibição, apenas algumas ainda não foram reabertas. ''O pessoal está buscando empréstimos junto à Casa do Empreendedor, um mínimo de R$ 2 mil, para recomeçar. É um período de transição, mas acreditamos que as coisas vão melhorar'', sustenta.
Nogueira admite que houve queda no movimento, em torno de 15% em janeiro, mas acredita que o fato é comum nesse período. ''O lucro trazido pelos CDs piratas é meio que ilusório. Ninguém acumula dinheiro com essa mercadoria, e você ainda corre o risco de perder tudo na Ponte da Amizade. Eu mesmo 'quebrei' três vezes vendendo CDs'', ilustra.
Foi com esse pensamento que o camelô Rogério Gonzales, 35, resolveu deixar de lado a venda de CDs para comercializar roupas, quando ainda trabalhava na rua. Hoje, no Shopping Popular, Gonzales comercializa DVDs e jogos. Ele afirma que os camelôs pretendem abandonar também esse tipo de mercadoria, e para isso aguardam a liberação de seus alvarás pela prefeitura. ''Aí passaremos a vender produtos somente com nota'', garante.

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