As calçadas são elementos fundamentais para a mobilidade e segurança dos pedestres. Para isso, devem apresentar boas condições de uso para todos os usuários. Mas o que fazer quando elas não existem, principalmente em locais de grande circulação de crianças? Em Londrina, muitos pais e estudantes enfrentam problemas de acessibilidade. Eles estão andando nas ruas para chegar às escolas devido à falta ou manutenção de calçadas.

Segundo a APM da escola  Francisco Pereira de Almeida Junior, a construção de calçadas é solicitada há sete anos
Segundo a APM da escola Francisco Pereira de Almeida Junior, a construção de calçadas é solicitada há sete anos | Foto: Gina Mardones

A FOLHA traz como exemplo unidades de ensino do município e uma do Estado para ilustrar essa realidade. Na escola municipal Francisco Pereira de Almeida Junior, no conjunto Guilherme Pires (zona leste), um grupo de mães que atuam no Conselho Escolar e na APM (Associação de Pais e Mestres) está organizando um abaixo-assinado para a construção de calçada por todo o quarteirão ocupado pela escola e demais melhorias.


A reportagem esteve no local e verificou que a calçada existente ocupa pouco mais de meio quarteirão, em frente ao portão da escola. Além disso, o espaço está em más condições, com muitos buracos. “Estamos solicitando a construção de calçadas há sete anos. Na rua lateral é o maior problema porque a rua é estreita, de mão dupla e muitos alunos seguem por ela para ir para casa”, diz Maria José Morais, presidente da APM, ao se referir à rua Odília Alves Pedra.


Ela explica que o portão de entrada e saída dos alunos da educação infantil (P4 e P5) fica naquela via, mas que todos entram pelo portão principal justamente pela falta de calçadas naquele trecho. As mães já colheram mais de cem assinaturas e pretendem aumentar esse número para protocolar em breve o documento na secretaria municipal de Educação.


A direção da escola afirma que já formalizou o pedido de calçamento há mais de um ano. Ao todo, 620 alunos frequentam as salas de aulas, divididos em turmas de educação infantil, fundamental e EJA (Educação de Jovens e Adultos).


Além das calçadas, o grupo de mães reclama do acúmulo de lixo do lado de fora da escola. “Tendo lixo, os insetos vão tudo para dentro da escola. Meu filho volta para casa cheio de picadas de pernilongo. Não tem como a gente não se preocupar, principalmente nesta época que muitos estão com dengue”, desabafa a mãe de aluno, Amélia Barbosa.

Mato alto
Também na zona leste, a comunidade da escola municipal Carlos Kraemer enfrenta outro problema no trânsito. Patricia Carvalho, que é presidente da APM, comenta que a calçada do Grêmio dos Operários de Londrina, que fica a poucos metros da escola, está tomada pelo mato alto. “Todos têm que andar na rua ou mudar o caminho para chegar na escola. Já abri vários chamados na ouvidoria da prefeitura no ano passado, sempre mencionando a passagem insegura dos alunos. Recentemente, eles fizeram a poda do lado de dentro, mas do lado de fora, que é o que nos interessa, continua”, afirma.


Região central
Na região central, todos os alunos que frequentam o colégio estadual Benjamin Constant e o CMEI (Centro Municipal de Educação Infantil) Clelia Regina Guilherme de Almeida Zotellui andam pelo asfalto para ir estudar. As duas instituições têm acesso pela rua Atílio Scudeler, na Vila Portuguesa, e juntas recebem mais de 600 alunos nos períodos matutino e vespertino.

Imediações do colégio Benjamin Constant
Imediações do colégio Benjamin Constant | Foto: Gustavo Carneiro


“É uma angústia desde quando abriu o CMEI aqui, em outubro de 2015. Tivemos situações de quase atropelamento, de desentendimento de pais. A rua é sem saída, então os carros vêm, fazem o contorno e voltam, passando ao lado das crianças”, conta a diretora Gislaine Daves da Conceição Magri. De acordo com ela, a secretaria de Educação fez somente um trecho de calçada em frente à escola (cerca de 50 metros), em 2018. O restante da rua continua sem calçamento.


A mesma preocupação é relatada pelo diretor do colégio estadual Benjamin Constant. “Os pais nos procuram pedindo providências. Estou há 25 anos nessa escola e nunca houve calçamento”, afirma Dirceu Vivan. Ele explica que até 2005 a escola funcionava no prédio onde atualmente é o CMEI Clelia Zotellui.


Vivan conta que a maior dificuldade é quando chove e durante o inverno. “Os pais e estudantes não conseguem passar pelo centro social porque é grama e fica tudo úmido. Além disso, temos muito lixo que é jogado na frente e ao lado da escola”, comenta o diretor, acrescentando que ao procurar o poder público, a resposta é sempre a mesma. “Dizem que vão verificar”.


Patrícia de Almeida tem um filho que frequenta o CMEI e uma filha que estuda no colégio. Todos os dias, eles caminham entre os veículos. “Nos horários de entrada e saída fica um movimento intenso. É perigoso demais. O cuidado tem que ser redobrado para não acontecer nenhum acidente”, reclama.


Cristiane Margato Abe, que também leva os filhos para estudar diariamente, faz questão de dar seu relato. “Para quem dirige também é um risco porque não há espaço. Os pedestres passam muito próximos dos carros e o medo é que as crianças saiam correndo. Uma calçada resolveria tudo isso e traria mais segurança para todos”, diz.

Na rua de acesso ao CMEI há espaço para calçada nos dois lados, mas ao invés de concreto, há mato, árvores, entulhos e galhos.



Soluções dependem de protocolos e lista de prioridades

Questionado pela reportagem sobre o problema de acessibilidade, o gabinete da SME (Secretaria Municipal de Educação) respondeu, por nota, que encaminhou a solicitação da escola municipal Francisco Pereira de Almeida Junior para a secretaria de Obras em 14 de fevereiro de 2019, para a execução de calçada onde está faltando.


Quanto ao CMEI Clelia, a SME informa que ao que lhe compete, o interior e a frente da unidade está totalmente calçado. “Porém, em seu entorno, na parte externa, foi solicitado a revitalização e encaminhada ao Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina) no dia 14 de março.


A SME esclarece que faz os encaminhamentos necessários para executar a solicitação, que podem ser atendidos por uma equipe da própria secretaria ou de outras pastas. Para isso, as escolas devem solicitar os serviços de manutenção junto à SME para que seja contemplado em uma lista de prioridades.
Em relação ao mato alto e lixo nas calçadas, a resposta é que os serviços são realizados pela prefeitura municipal por meio de licitação. “Após o processo de licitação, um fiscal de contrato é nomeado para este acompanhamento.”


Sobre o Colégio Estadual Benjamin Constant, o supervisor de Edificações do NRE (Núcleo Regional de Ensino), Marcelo Manganaro, afirma, também por nota, que fez contato com a direção e a mesma apresentou apenas um número de protocolo com menção ao calçamento, no ano de 2009.
“Por ser um protocolo muito antigo, ele foi arquivado no Fundepar (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional). Diante da real necessidade, a escola foi instruída a efetivar, via sistema, a solicitação de visita técnica pelos engenheiros do NRE, o qual irá produzir um relatório e encaminhar ao Fundepar, órgão responsável pela indicação orçamentária”, diz. Após o contato do NRE, a escola efetivou um novo pedido na terça-feira (2).


O NRE comunica ainda que é intermediário no processo, atuando no recebimento de processos e na realização de vistoria para os encaminhamentos necessários. “Para solicitar as intervenções, a unidade escolar deve acessar o Obras On-Line (www.fundepar.pr.gov.br) e efetuar o pedido”. Cada demanda depende da disponibilidade orçamentária do Fundepar e da viabilidade da execução, a partir da especificidade de cada escola.

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