Com o filho de colo doente nos braços, a auxiliar de telemarketing Maristela Miranda dos Santos, de 19 anos, havia acabado de ser atendida por um médico na Unidade de Saúde Estrela, no bairro Portão. Havia esperado mais de três horas para ter o diagnóstico de que o pequeno Flávio está com varicela. Na fila, ela foi um dos moradores de Curitiba que sofreram os primeiros reflexos da paralisação de parte dos servidores municipais, iniciada ontem.
Profissionais das unidades de saúde - entre eles médicos, dentistas, enfermeiros e auxiliares-, e de escolas municipais, como professores, aderiram à paralisação. De acordo com a Prefeitura de Curitiba, a greve não chegou a afetar, de forma significativa, os serviços oferecidos pelo município.
Das 174 escolas, 12 não funcionaram, e das 164 creches, apenas uma não recebeu crianças. O total representa 3,8% da rede municipal de ensino. Já entre as 133 unidades de saúde, em apenas cinco o atendimento foi parcial. Foi o caso da Unidade Estrela, que começou a manhã de ontem com 40% da capacidade. O restante das unidades funcionou normalmente.
Mesmo sem a adesão maciça do funcionalismo municipal, a greve continua por tempo indeterminado. Para marcar a paralisação, deflagrada ontem, centenas de servidores públicos, liderados pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba (Sismuc) e pelo Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac), realizaram uma passeata entre a Praça Santos Andrade, no Centro, e a prefeitura, no Centro Cívico. No ato, os manifestantes reforçaram a exigência por melhorias salariais e pediram novas negociações com o Executivo.
A presidente do Sismuc, Irene Rodrigues, informou que as manifestações realizadas no mês passado não surtiram efeito, já que não houve avanço nas negociações. Os grevistas continuam exigindo um reajuste de 14,61% nos salários dos mais de 33 mil servidores municipais. O valor seria referente às perdas salariais.
Na última negociação, a prefeitura propôs um reajuste de 6,5% - desses, 6,25% são relativos à reposição da inflação do período e os outros 0,25% seriam de aumento real. Para o sindicato, o valor é irrisório. Por isso, a classe está decidida a manter a paralisação. "A greve vai continuar pelo tempo que for preciso. Com o tempo, mais pessoas vão aderir e acho que vamos conseguir nos impor. A prefeitura vai ceder e alguma negociação vai sair", acredita Irene.

Negociação

No início da tarde, o comando de greve teve uma nova reunião com a prefeitura. Segundo o secretário municipal de Recursos Humanos, Paulo Afonso Schmidt, a prefeitura reiterou a proposta feita em 31 de março, mas as discussões ainda não foram encerradas. Sobre a possibilidade dos grevistas impedirem os servidores de assumir seus postos de trabalho, a partir de hoje, ele diz que o Executivo já estuda medidas legais para que a população não seja afetada.
Enquanto a queda de braços entre servidores e prefeitura continua, a população começa a sentir os efeitos da greve, mesmo que a paralisação dos serviços tenha acontecido em pontos isolados. É o caso de Maristela Santos, na Unidade de Saúde Estrela. "A gente que tem criança, já é ruim. As crianças ficam cansadas de esperar tanto. O atendimento é lento. Com a greve, piora tudo", diz.
Raimundo Miguel Barbosa, de 63 anos, concorda. "A greve pode prejudicar bastante o atendimento. Ainda bem que está calmo hoje. Se fosse um dia normal, a fila ia estar lá fora", comenta. Funcionário da construção civil, Barbosa elogia o atendimento das unidades de saúde, mas diz que a paralisação pode apagar a boa impressão. "Se a pessoa que está doente pode pagar pra ser atendida, tudo bem, mas e quem não pode?", indaga. (Colaborou Marcela Rocha Mendes)

mockup