Agência Estado
O pedreiro Edson Ricardo Lucena, de 22 anos, contratado pelo arrendatário da Fazenda Borborema, Pedro Ribeiro, para ajudar a retirar cerca de 40 famílias de sem-terra do local, disse ontem que seu companheiro José Lopes de Oliveira, de 36 anos, o Django, já tinha se entregado quando foi morto. Eles estavam dentro de um quarto da casa do administrador quando foram encontrados pelos sem-terra na manhã do último domingo.
Ainda assustado e com vários hematomas pelo corpo, Lucena conta que só escapou porque um cinegrafista da TV Londrina pediu para que os sem-terra parassem com o espancamento. ‘‘Se não tivesse imprensa lá e eu não tivesse tido muita sorte eu também estava morto’’, afirmou. Depois de destruírem barracos e expulsarem os sem-terra do local onde estavam acampados, no sábado, cinco seguranças contratados por Ribeiro foram embora, ficando apenas Django e Lucena, para dar proteção ao administrador da fazenda.
Na manhã de domingo, eles foram surpreendidos em um quarto da casa do administrador. Imagens da televisão mostram Lucena recebendo coronhadas de uma carabina empunhada por um sem-terra. O rapaz, morador em Londrina, conheceu Django apenas na véspera. Segundo Pedro Ribeiro, Django já tinha feito alguns trabalhos de cobrança para ele. ‘‘Django é valente, corajoso, levei ele como amigo’’, disse Ribeiro.
‘‘Django falou: vamos nos entregar’’, afirmou Lucena. ‘‘Foi para tentar salvar a minha vida.’’ Segundo Lucena, quando os sem-terra entraram na casa, eles colocaram as mãos para cima. Os sem-terra mandaram que eles se deitassem no chão. Django deitou entre duas camas, enquanto ele ficou nos pés. ‘‘Levei uma coronhada na cabeça, tentei colocar a cabeça entre as pernas, mas eles continuaram batendo, e logo depois escutei o tiro.’’ A bala entrou pelo lado direito do crânio de Django, saiu pela mandíbula e fixou-se no chão da casa. O corpo foi sepultado em Andradina (SP).
Segundo Lucena, Django ainda levou vários chutes antes de morrer. ‘‘Tinha muito sangue, mas ele estava respirando’’, disse. ‘‘Os sem-terra chutavam e davam risada, eles ficaram um bom tempo fazendo isso.’’ Lucena conta que levou coronhadas no rosto e nas costelas quando saía da casa. Batendo, os sem-terra teriam obrigado que ele dissesse para os repórteres que Django tinha se matado e que eles tinham sido contratados pelo proprietário da fazenda, Chafic Burihan.

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