No conto A Nova Califórnia, de Lima Barreto, escrito em 1910, os moradores da fictícia cidade de Tubiacanga ficaram indignados com uma série de furtos que acontecia no cemitério, atacando dois dos pilares mais sólidos da sociedade: a crença religiosa e o respeito aos mortos. A Londrina de 2012 enfrenta problemas semelhantes aos daquela cidade fictícia, com registros frequentes de furtos de puxadores de jazigos, vasos, placas e outros objetos guardados nas administrações dos cemitérios. Se no conto de Lima Barreto as pessoas procuravam os ossos para transformá-los em ouro, na Londrina do século 21 os furtos acontecem para trocar metais dos ornamentos dos jazigos feitos de bronze, cobre e alumínio por algumas dezenas de reais, que posteriormente são trocados por drogas como o crack.
A FOLHA mostrou o problema em uma reportagem no dia 22 de fevereiro, destacando a ocorrência de 11 furtos em menos de dois meses no Cemitério Jardim da Saudade, na Zona Norte. Na tentativa de aumentar a segurança dos funcionários e dos visitantes e também reduzir o índice de roubos, a Acesf (autarquia responsável pela administração dos cemitérios) iniciou nesta semana um projeto-piloto em parceria com a secretaria municipal de Defesa Social. Uma das medidas é manter uma equipe nos cemitérios Jardim da Saudade e São Pedro (Área Central). (leia mais nesta página).
A reportagem voltou a percorrer os cemitérios na quarta-feira. No Jardim da Saudade, as marcas do último dos 12 furtos que aconteceram neste ano continuam visíveis. As portas do setor administrativo que foi arrombado continuam danificadas e o bebedouro que teve o motor furtado ainda não foi consertado.
A auxiliar administrativa Irene Maciel da Silva relata que já furtaram objetos do túmulo de sua filha. ''Eles levaram um brinquedo que ela gostava e porta-retratos que estavam no jazigo dela. A esquadria de alumínio também foi levada'', detalha. ''Nem no cemitério se tem paz'', reclama.
Os visitantes do Cemitério São Pedro afirmam que há mesmo necessidade de uma segurança mais reforçada. Eles também reclamam que durante a noite é comum ver usuários de drogas no local.
O pintor aposentado Natalício Silva Pereira, porém, acredita que a atuação da Guarda não será suficiente para conter a ação dos bandidos. ''Quando o bandido quer uma coisa ele consegue, não adianta nem colocar cercas elétricas que eles dão um jeito'', analisa. Ele afirma que os bandidos perderam o respeito que deveriam ter com os mortos.
A dona de casa Maria José Pereira também costuma ir ao São Pedro, mas revela que sempre teve medo. ''Os jazigos ficam perto uns dos outros e os bandidos podem ficar escondidos entre eles'', justifica. Ela destaca que o aumento da vigilância pelos Guardas Municipais pode dar um pouco mais de tranquilidade aos frequentadores.
Reposição
Segundo o proprietário da Fundição Bosco, de Londrina, José Joaquim Rodrigues, cerca de 30% dos seus clientes é formado por pessoas que querem fazer a reposição de materiais furtados dos túmulos. Ele conta que as placas de bronze são comercializadas por R$ 46 (sem foto) e por R$ 87 (com foto), e o custo médio dos puxadores é de R$ 19. ''Atualmente tenho oferecido outros materiais no lugar do bronze para que os clientes não passem por esse tipo de transtorno, mas o que temos notado é que várias pessoas que tiveram o túmulo da família furtados não procuram repor o material com medo de que isso aconteça de novo'', ressalta.

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