Segurança máxima
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de março de 2002
Benedito Teles<br>Equipe da Folha 
Um portão imenso. Algo parecido com um castelo com torres e soldados. Uma área inacessível na periferia da cidade. Um portão das dimensões da liberdade. O paranaense Cícero, o Cirso, escoltado, desce em uma área de segurança. É conduzido por soldados e, com sua escolta, atravessa os portões. Na proporção que avança, agentes responsáveis pela segurança aumentam. Em uma sala pequena, Cirso é então informado, em meio a olhares tensos e atentos, de seus deveres e tarefas. Nesse local é despido. Seus pertences são revirados e revistados. Recebe informações e ordens.
Cirso é conduzido para outro local, caminha um metro e um portão. Cinco metros e um novo portão. Mais cinco metros e um novo e definitivo portão. Novamente se despe. Agora querem que conte a história de sua vida e que explique o que não tem explicação. Com um colchão e uma porção de soldados, avança. Um novo portão. O homem mantém as mãos para trás e carrega no interior de um saco todos os seus pertences, que naquele momento se resumem a meia dúzia de roupas.
De cabeça baixa, Cirso não olha para lado algum. Tenso. Músculos e nervos aguardam. Ouve algum gracejo, mas não responde. Ouve gritos, mas não grita. Caminha durante cerca de 80 metros. Nesta altura, cadeados, chaves e portões são familiares. Ele encontra outros no sentido oposto. Também de cabeça baixa, também com as mãos para trás, também à esquerda.
Ele já passou pelo menos por uma dezena deles. Entra em uma galeria, porém, olha antes o corredor principal. Percebe que é escuro e frio. Uma escuridão e frieza que nem o sol poderia iluminar ou aquecer. Ele se dá conta tardiamente que nesse local não há sol, não há crianças, não há nada. Na galeria é novamente revistado. Outros homens falam o mínimo. Contam das suas vidas e histórias, como se ele não estivesse ali. Eles não se importam.
Tira-se o ferrolho. Abre-se uma porta com cerca de um palmo de espessura. O detento encontra um cubículo com grades em seu interior. Em uma área de 5x2,5 metros, seis detentos são confinados. Três beliches de concreto, uma privada e uma pia. O cheiro forte impressiona. As roupas e fios pendurados também. As garrafas de plástico com água estão em seu pedaço de concreto. Antes de fechar, ocorre a última revista em seu primeiro dia na penitenciária estadual. Pela última vez ele se despe. Fica nu. Sem sonhos, famílias ou esperança. Tudo é confiscado.


