Londrina

Mário CesarEspecialistaHélcio de Almeida: ‘Dou tranquilidade aos meus companheiros. O agente tem que ser o promotor da calma’Ele é um dos principais responsáveis pela segurança do presidente Fernando Henrique Cardoso. Esteve em Londrina há poucos dias o tenente-coronel de infantaria Hélcio Bruno de Almeida, 40 anos, chefe da divisão de operações na subchefia de segurança da Presidência da República. Gaúcho de Santa Maria (RS), Hélcio - como gosta de ser chamado - formou-se em 1978 pela Academia Militar das Agulhas Negras. Possui curso de especialização na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Participou de forças militares especiais nos EUA. Por sete anos foi instrutor da Organização das Nações Unidas (ONU) e observador do órgão durante todo o processo de pacificação entre os movimentos de resistência na Nicarágua (América Central). Ele atuou diretamente na segurança dos presidentes Fernando Collor de Mello e Itamar Franco. Atualmente ajuda a coordenar a segurança de FHC.
Há cerca de 15 dias, Hélcio veio a Londrina ministrar uma palestra sobre ‘‘Segurança Total’’ a convite de amigos, que participam como ele de um movimento religioso. O tenente-coronel diz que segurança é sinônimo de paz. ‘‘O agente deve estar tranquilo e transferir paz para quem recebe a sua segurança.’ Leia a seguir os trechos principais da entrevista com Hélcio de Almeida:
Folha de Londrina- O que é segurança em relação à cidadania? Muitas vezes o conceito de segurança é deturpado em nome da ordem social.
Hélcio Bruno de Almeida - Realmente, em outras épocas, tentava-se justificar a truculência e a estupidez policial em cima de uma pseudo-segurança. Prefiro falar dela com outro enfoque: a segurança vista como um serviço que permita ao cidadão desenvolver suas atividades. Que ele possa viver com tranquilidade. Devemos ver a segurança como resultado final, como um termo de paz para que o cidadão tenha boa qualidade de vida.
Folha - Em relação à ordem social, o senhor acha que segurança seja um fim ou um meio?
Hélcio - Engana-se quem disser que segurança seja um fim. Segurança é um meio pelo qual o cidadão chega aos seus objetivos. Segurança também não é centro de nada. É este ponto que procuramos deixar bem claro ao nosso pessoal. Evidenciamos que quem trabalha no setor é apenas um instrumento. É um canal que permite às pessoas ter tranquilidade para viver em toda extensão do significado da vida.
Folha - Existe no Brasil alguma mudança de mentalidade nos responsáveis pela nossa segurança pública?
Hélcio - Estamos vivendo em um país emergente. Muitas vezes as coisas passam e acontecem e não temos tempo de avaliar e medir. No entanto, já percebemos uma preocupação dos governantes em colocar, no serviço de segurança, pessoas que tenham uma visão humana, que percebam estar na função com o objetivo de tranquilizar a comunidade. Para não fazer injustiça, não vou citar nomes, mas conheço secretários de Segurança Pública que possuem a consciência de simples cooperadores da comunidade em que vivem, sem nenhum ranço de truculência e prepotência. No entanto, temos que avançar bem mais neste aspecto.
Folha - Mas não é isso que temos visto em relação ao policial comum...
Hélcio - A formação de um policial é muito complexa, e ainda existem muitos vícios no processo. Temos de criar meios e incutir na cabeça do policial que ele deve estar associado a uma imagem de respeito e proteção. É a esse ideal que deve chegar o policial, e não transfigurado na imagem de repressor e de pessoa perigosa. Um agente de segurança não pode ficar alienado na sociedade que vive. Diante de qualquer abordagem, o policial deve sempre buscar o diálogo. Bater deve ser o último argumento do policial ideal.
Folha - Este policial ideal de que o senhor fala, pelo menos em nossa realidade atual, não aparece muito. Existe atrás dele o cidadão mal remunerado...
Hélcio - Lógico que, quando falo do policial ideal, existe a necessidade de resgatá-lo em suas necessidade e dignidade. Não adianta somente cobrá-lo quando ele não dispõe de meios para responder os nossos anseios. O policial que vemos na maioria das vezes é aquele homem sofrido, que sai de casa deixando sua família até passando fome. Qual o ser humano capaz de discernimento lógico, quando está tolhido em suas necessidades básicas? O policial é um ser humano e tem que ser cuidado como um todo. O policial não pode ser um robô.
Folha - Qual a orientação que o senhor dá para sua equipe, cuja responsabilidade é cuidar da segurança do presidente da República?
Hélcio - Primeiramente dou tranquilidade aos meus companheiros. O agente tem ser o promotor da calma. Se uma pessoa está mal-intencionada, na hora de ser abordada por um dos nossos agentes, garanto que vai pensar mais de duas vezes para praticar algum ato. Você tem que criar um ambiente que desencoraje quem pretende fazer alguma coisa. Uma das principais virtudes do agente é propiciar calmaria no meio onde atua. Nada de gritaria, empurrões e safanões.
Folha - O senhor é um homem religioso e diz que todo policial deveria ter religiosidade para o bom desempenho da função.
Hélcio - Isso não é um dogma, pois conheço policiais que não seguem nenhuma religião e desempenham bem seu trabalho. O que eu quero enfatizar é que não existe alguém com três roupagens que tenha três personalidades. Por exemplo: quando estou fardado sou o homem da porrada; quando estou em casa de pijama sou aquele excelente marido e pai; quando estou de terno indo para a igreja, sou aquele amigo sociável, educado, maleável e espiritual... Isso não existe. Pelo menos não deve existir.
Folha - Como o senhor compatibiliza a função policial e militar com a de religioso?
Hélcio - O coração de Deus é amor. No entanto a mão de Deus é justa. Deus é justo naquilo que faz. Se Deus não fosse justo, seria o caos. Iríamos comprar uma arma, matar quem nos ofendesse e assim por diante...
A palavra que Deus fala é fiel pois ela se cumpre. Os olhos de Deus estão permanentemente nos olhando: servem para nos dar alguma bênção ou nos julgar. Se eu estou com Deus, Ele está dentro de mim me orientando. Ora, muitas vezes Ele está alegre, outras vezes Ele está zangado. A própria vida mostra isto. Eu como policial tenho o dever de dar tranquilidade à população. Mas, no momento que for necessário usar a força da autoridade, que me foi confiada, eu tenho que usá-la. Imagine se alguém sacar uma arma no ambiente em que estiverem o Presidente da República e outras pessoas? Eu digo que estou preparado para usar minha arma e os tiros que saírem dela peço que alcancem os seus objetivos. Procurarei acertá-los todos.
Folha - O senhor já passou por esta experiência?
Hélcio - Já tivemos situações críticas quando fazíamos a segurança do presidente Fernando Henrique, em Brasília. Um homem de meia-idade saiu correndo quando nós o identificamos por sua inquietação. Eu não podia sair de onde estava e chamei um agente para abordar esse homem. Ele percebeu minha ordem e saiu correndo. Para evitar confusão, deixamos que ele fugisse.
Folha - Existe uma preocupação com o terrorismo internacional em relação ao nosso presidente?
Hélcio - Mais do que nunca. Estamos vivendo a época da globalização da economia e também a globalização do crime. Eu visualizo a questão de segurança tomando como exemplo o seguinte: se você colocar um saco de pedras sobre a sua mesa, não precisa se preocupar. Mas se colocar uma barra de ouro, você tem que se preocupar. A segurança está relacionada com o valor. Hoje, com a projeção do País, o presidente Fernando Henrique é uma peça importante em relação a muitos interesses. Temos em nossa frente a liderança do Brasil no Mercosul. Veja que já estamos pleiteando um assento no Conselho de Segurança da ONU (Organizações das Nações Unidas). É o nosso presidente que toma as decisões diante desses interesses e seu peso de influência faz crescer a necessidade de possuir mais segurança.
Folha - O senhor e sua equipe, com toda essa experiência, tiveram que se curvar à segurança do presidente Bill Clinton. Eles não acreditaram muito na eficiência brasileira e resolveram trazer uma verdadeira parafernália em armas e gente...
Helcio - Nós temos um bom relacionamento com os serviços de informação e segurança dos Estados Unidos. Quando o presidente Fernando Henrique vai para os Estados Unidos nós fazemos a mesma coisa, pois temos a responsabilidade direta da segurança de nossa autoridade maior. Aqui, fizemos a segurança de nosso presidente, atuando com os policiais americanos no mesmo nível deles.
Folha - Então a prepotência americana não passou de fofoca da imprensa?
Hélcio - Não é bem assim. Para uma pessoa desavisada o enfoque pode ter sido dado como prepotência. Eu quero colocar que segurança tem níveis. Para cada nível, há uma série de medidas para atendimento. Temos o nível especial, normal e reduzido. Especial é quando a autoridade está sofrendo uma ameaça definida ou em situação de extraordinário perigo. No caso de nosso presidente, temos um nível de segurança normal. A avaliação é feita diante de um quadro preestabelecido. Um presidente já em trânsito na função, com o substituto eleito, podemos colocar no nível de segurança como reduzido. O presidente americano em qualquer parte do mundo precisa de segurança especial. Posso garantir que na visita de Bill Clinton o sistema de segurança foi coordenado por brasileiros.
Folha- Potencialmente qualquer presidente de país de primeiro mundo tem segurança especial?
Hélcio- Nem sempre. Quando o presidente de um determinado país de terceiro mundo se movimenta - não vou dizer quem é - necessita de segurança especial. Três grupos terroristas o acompanham pelo mundo para matá-lo. Quando ele esteve no Brasil, a sua equipe mostrou um vídeo com a explosão de um palanque em que morreram diversas pessoas. Quando Fernando Henrique se encontrou com esse presidente estrangeiro, passamos a operar em medida de segurança especial.
Folha - A segurança do presidente Itamar Franco foi muito criticada quando a modelo Lilian Ramos subiu no palanque sem calcinha, durante o desfile carnavalesco no Rio de Janeiro...
Hélcio - Ela subiu a convite da comitiva do presidente. Fica difícil verificar tudo...
Folha - Qual a maior preocupação da segurança nas viagens do presidente pelo Brasil?
Hélcio - São os tumultos provocados por contestadores. Alguém que jogue pedras contra a comitiva presidencial ou faça qualquer coisa em plano maior. Imagine o presidente inaugurando uma hidrelétrica e ser atingido por algum objeto... A mídia vai esquecer o evento maior para descrever a agressão contra o presidente. Isso é ruim em todos os aspectos: para nós brasileiros e para nossa boa imagem externa.
Folha - Como o senhor vê a formação de uma só polícia no Brasil? Seria no caso fundir a Polícia Militar com a Polícia Civil?
Hélcio - O assunto está sendo muito bem discutido no Congresso Nacional. É hora de novos rumos. É preciso formalizar meios para que a sociedade tenha um melhor serviço de segurança. Posso adiantar que, se houver a fusão, o policial militar não vai perder o emprego. Tenho a certeza que esta discussão vai redundar no melhor para o País.
Folha - É difícil fazer a segurança do presidente Fernando Henrique Cardoso?
Hélcio - O presidente Fernando Henrique é muito mais inteligente do que eu. Ele está muito mais capacitado para tomar conta dele mesmo do que eu. O presidente tem bom senso, o que facilita fazer a sua segurança. No início do mandato, como acontece com todos os presidentes, poderíamos dizer que era mais problemático dar-lhe segurança. Atualmente, no final de governo, existe um total entrosamento entre nós e ele. Meu contato com o presidente é formal, pois a nossa ligação é feita por intermédio do chefe da Casa Militar.
Folha - O senhor acompanhou a saída de Fernando Collor de Mello, quando foi destituído da Presidência da República?
Hélcio - Nós o acompanhamos até o helicóptero. Foi uma experiência muito difícil e importante para todos nós da segurança. Era um presidente que saía sem cumprir o mandato, o que representava uma situação inédita no jogo democrático. Fizemos o possível para lhe dar total segurança, diante dos manifestantes que estavam em frente ao Palácio da Alvorada. Aqui eu volto a afirmar: para se fazer segurança temos que ter clima de paz. Buscamos transformar toda aquela situação em tranquilidade, para se evitar uma confusão maior. Naquele momento colocamos o ex-presidente Collor em nível especial de segurança.
Folha - O ex-presidente Collor estava muito nervoso ao deixar o palácio?
Hélcio - Como eu já disse o presidente, com o tempo, percebe o que tem em sua volta para protegê-lo. Ele deveria estar nervoso pela situação de deposto. Quanto à sua segurança, ele sabia que estava garantida. Quero enfatizar que temos como base um decálogo. Primeiro item: segurança não pode dar problema. Segundo item: segurança não pode dar problema. Terceiro item: segurança não pode dar problema, e assim por diante... Com esse lema damos 24 horas de segurança para o presidente.
Folha - Vocês acompanham o presidente em todos os lugares - inclusive boates, passeios, férias?
Hélcio - Nós acompanhamos o presidente em todos os lugares, pois esta é a nossa função...
Folha - Até quando o presidente Itamar Franco namorava June Drummond?
Hélcio - Até quando o presidente Itamar se encontrava com a senhora June...
Folha - Nessas situações é difícil fazer segurança?
Hélcio - Não é difícil, porque somos conscientes e sabemos até onde devemos ir para não ofender a intimidade das pessoas.
Folha - Já está previsto um novo esquema de segurança para o presidente Fernando Cardoso, já que ele deve se candidatar à reeleição e permanecerá no cargo?
Hélcio - Trata-se de uma situação inédita e nos preocupa. Ele vai fazer campanha e estará em contato direto com o público. A situação de candidato realmente vai aumentar a necessidade de segurança. Já temos estudos sobre isso.
Folha - O senhor fala em religião, pratica religião e até propõe a paz cristã para exercitar a segurança material. Qual é a sua religião?
Hélcio - Sou cristão em Brasília. Hoje estou com os meus irmãos de Londrina. Na realidade, quando praticamos a espiritualidade religiosa não temos rótulo. Recentemente vimos toda a imprensa publicar as declarações de um policial, condenado por prática de chacina, de que era um crente e pertencia à igreja tal. Veja que ele mostrou apenas rótulos. Na realidade, este policial não estava vivendo o espírito cristão. Na paz e na tranquilidade de Cristo ele jamais praticaria um ato desses.

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