''A cultura política e religiosa do Brasil considera a fome uma questão de assistência social, caridade e piedade. Não é. A segurança alimentar é um direito humano básico, uma questão de cidadania. Tanto os governos quanto o povo ainda têm que evoluir muito. Todo direito que é lesado, negado ou está em perigo exige medidas emergenciais. Só que não se pode continuar tratando o direito como uma questão de assistência.''
A avaliação é de dom Mauro Morelli, presidente do Instituto Harpia e criador do Programa Fome Zero, do governo federal, em 2001. Ele proferiu ontem a conferência ''Universidade e Sociedade - Uma Agenda de Compromissos'', na abertura do 2º Fórum de Extensão, no Anfiteatro Maior do Centro de Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
O religioso acredita que, independentemente da postura do governante, o maior problema no combate à fome é a ''estruturação complexa'' e ''em função de uma minoria'' do Estado brasileiro. ''O Estado está estruturado de uma maneira muito forte para atingir seus objetivos. Não se destina a garantir cidadania a 100% do povo. Nunca foi assim'', apontou.
A crítica contra a estrutura estatal é feita com conhecimento de causa, de quem já fez parte do governo. Com status de ministro no mandato de Itamar Franco, Morelli relembra das dificuldades para que as determinações do próprio presidente fossem cumpridas. Portanto, acrescenta, a segurança alimentar é um direito elementar e a saída está na articulação entre a sociedade e os governos.
E uma forma importante de articulação, na avaliação de dom Mauro Morelli, é a integração entre as instituições de ensino superior e a sociedade. A proposta do criador do Fome Zero é que as universidades devem voltar-se para a questão do direito à alimentação e à nutrição.
A universidade, ensina, precisa pesquisar e trocar informações sobre a cultura de alimentação dos povos de sua região. ''É necessário também trabalhar para dar um formato científico melhor, com o desenvolvimento de tecnologias. A universidade deve colocar na sua agenda que deve transformar a si mesma e produzir pesquisas que ajudem nos diagnósticos sobre o quadro de segurança e insegurança alimentar'', ressaltou. Com estes diagnósticos, destaca Morelli, as instituições podem oferecer aos movimentos sociais e ao poder público embasamento para políticas públicas de combate à fome.

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