Segundo o autor, carta foi escrita durante a prisão no 2º DP
DESABAFO
Segundo o autor, carta foi escrita durante a prisão no 2º DP
Atualmente é compreensível a grande preocupação de todos com a preservação do meio ambiente e estamos plenamente conscientes do nosso papel neste contexto, haja vista o trabalho que desenvolvemos neste sentido quando ocupamos o cargo de secretário de Agricultura do Estado do Paraná.
É sabido por todos das dificuldades que a Indústria Têxtil Carambeí S.A. vem atravessando e que apesar de tudo, obstinadamente vem se mantendo viva, muito mais pela coragem e teimosia, do que por lógica financeira do seu presidente, empresário Carlos Pereira Paschoal, seu proprietário e fundador.
É com muita tristeza que venho acompanhando o calvário trilhado pelas indústrias têxteis brasileiras. Apenas para citar alguns exemplos, entre a cidade de São Paulo e Americana, no mesmo Estado, fecharam por falência ou outro motivo, mais de 1.200 indústrias do setor têxtil, entre elas a tradicional fábrica de Linho Teba, com a extinção de milhares e milhares de empregos em apenas 130 quilômetros de distância. Meu Deus, quanta violência!
Em Londrina, foram fechadas a Heringer e a Toyo Sen I do Brasil, com a perda de mais de 1.000 empregos diretos. Era mais barato comprar confecções importadas, principalmente da China que subsidia seus produtos para poder alimentar mais de um bilhão e meio de chineses à custa do desemprego de brasileiros e brasileiras.
O que a Carambeí fez? Foi perdendo paulatinamente parte do seu patrimônio, dia a dia, mês a mês, na esperança de que o governo federal despertasse deste pesadelo do maior período de desemprego da vida do povo brasileiro e finalmente ajustasse este câmbio, enganosamente sustentado com o sangue e suor de todos os segmentos da sociedade, indo da agricultura à indústria de tecnologia mais avançada.
Carlos Pereira Paschoal, cidadão honorário de Londrina, como um louco e obstinado se manteve fiel aos seus sonhos de pioneiro empreendedor e colocou paulatinamente parte de seu patrimônio pessoal, máquinas e imóveis, para honrar nessa trajetória suicida os compromissos que surgiam, até chegar aos dias de hoje, onde ele vislumbrava um pouco de esperança de melhores dias, e inicia devagar o renascimento da atividade industrial da Carambeí, inaugurada na gestão do prefeito Dalton Fonseca Paranaguá, responsável que foi pela sua implantação em Londrina.
Reiniciou a contratação de funcionários gradativamente e nesses poucos meses deu emprego a mais de 140 patrícios londrinenses, seres humanos, resgatados, na nossa opinião, da pior humilhação, que pode ser imposta a um chefe de família, que é o desemprego e a fome, com certeza, a maior forma de violência imposta a um ser humano, quiçá, muito maior que a própria tortura física.
Um chefe de família desempregado sai de casa pela manhã cheio de sonhos e esperanças. Sua família fica na calçada, ansiosa, esperando, que na sua volta, à noite, saia de sua boca a notícia de que conseguiu um emprego e que suas mãos tragam ao menos um pouco de feijão, de óleo, de sal e arroz para sepultar a maior crueldade humana: a fome.
Eu, Carlos Tibúrcio, me desvinculei do Grupo Empresarial Carambeí em 1994, mas sempre fui comprometido com o respeito ao meio ambiente. Foi na minha gestão como presidente da Sociedade Rural do Paraná que se iniciou o tratamento dos dejetos dos currais, obra finalizada pelo meu sucessor Neco Garcia Cid.
Como genro de Carlos Paschoal tenho acompanhado no convívio familiar seu projeto de completar o tratamento de água e acabar de vez com o problema mas, infelizmente até agora, o que foi possível fazer, dentro desta triste realidade que atravessa a indústria brasileira, foi juntar, literalmente, os seus cacos e pedaços, colocá-la em pé, rodar as suas máquinas, dialogar com os credores pedindo paciência e, finalmente, oferecer emprego, porque este foi sempre o objetivo maior da vida de Carlos Paschoal.
Milagres, meus amigos, tenho certeza, ele não consegue fazer, mas empregos, isso sim, ele sempre soube criar, porque para isso ele vem dedicando toda a sua vida.
Carlos Tibúrcio, ex-diretor da Carambeí





