Moradora do Morro do Carrapato, na Zona Leste de Londrina, a dona de casa Alexandra Aparecida Germinari, 22, assiste impotente os seis filhos enfrentarem o mesmo problema que ela vivenciou quando, ainda na primeira série, largou a escola em função das constantes mudanças da família. ''A gente não tinha onde morar, vivíamos trocando de casa e, assim, acabei sem estudar'', contou ela, que não sabe ler nem escrever. ''É meu filho mais velho que me ajuda com os bilhetes que as professoras mandam'', relatou.
Aprisionada pela miséria, ela já manteve os três meninos mais velhos fora da escola, por um ano, quando eles se mudaram da Zona Sul para o Morro. ''Não consegui vagas e eles ficaram em casa. Por causa disso, também parei de receber o Bolsa-família'', lamentou a mãe, que vive apenas da renda obtida pelo trabalho na reciclagem e conta com a ajuda mensal de um projeto social que leva alimentos aos moradores do bairro.
Sem comprovante de endereço e falta de acesso à documentação pessoal básica, também enfrenta dificuldade para atender a burocracia toda vez que vai providenciar novas matrículas. ''Na última vez pensei até em desistir, mas percebi que não era justo. Não quero que os meus filhos fiquem sem trabalho por não saberem ler.''
Incluída entre os moradores do Morro do Carrapato que se mudarão para o Conjunto Vista Bela, construído pela Cohab na Zona Norte, Alexandra anseia pela mudança para uma casa ''de verdade'', mas preocupa-se com a possibilidade de novamente não conseguir vagas para os meninos. ''Lá não tem escola, terei que procurar nos bairros vizinhos'', disse.

Na fila
Também na iminência de se mudar para o Vista Bela, Vilma de Oliveira Precioto, 38, teme pela vida escolar dos filhos mais novos, que já ficaram um tempo sem estudar quando a família foi para Borrazópolis (Norte) em busca de oportunidades de trabalho. ''Pelo jeito, vai ser a mesma dificuldade de conseguir vagas'', antecipou a mãe, cuja filha mais velha, de 19 anos, parou de estudar sem ter concluído a quinta série. ''Quem não tem estudo não consegue trabalho'', preocupou-se.
Responsável por cuidar de quatro netos, Maria Aparecida de Barros, 58, moradora do Jardim Santa Fé (Zona Leste), enfrentou um verdadeiro calvário para obter vaga para o menino mais velho, de 10 anos, que ficou quase dois anos sem frequentar a escola por conta das mudanças constantes entre as casas da avó e do pai. ''Fiquei na fila de espera em três colégios, mas não arrumei vaga. Acabei ficando sem o Bolsa-família e começou a faltar dinheiro para comprar comida, remédios... Uma criança fora da escola traz muitos problemas.''
A vaga só foi providenciada depois da interferência de voluntários de um projeto social. Feliz com o retorno do neto aos bancos escolares, ela espera que o menino consiga recuperar o tempo perdido e, assim, tenha um destino melhor que o dos avós. ''Quando a gente é novo, fica mais fácil aprender. Eu mesma sou muito revoltada porque não sei ler'', contou. Na casa onde moram o casal de avós e quatro netos, apenas a menina mais velha, de 12 anos, é plenamente alfabetizada.

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