Sete e vinte, sol já assanhado. Ainda que o friozinho da manhã confirmasse ser julho, ele desceu correndo as escadarias do prédio, desprezando, como de hábito, o inverno. ‘‘Blusa, nesse calor de Londrina, só atrapalha’’, costumava retrucar quando a mãe recomendava um agasalho. A pressa e o calor, mais emocional que orgânico, tinham um motivo justo: apesar de segunda-feira, início de mais uma jornada semanal de trabalho, a agenda da noite já estava definida desde o sábado, depois da pelada no campo de suíço da associação de funcionários:
– Prepara aquelas cervejinhas que lá pelas oito a gente desce. A carne o senhor compra e depois a gente racha. Vou indo mais cedo pra poder avisar a turma.
O recado, ao dono da mercearia localizada a meio quarteirão, era, na verdade, um aviso claro ao comerciante: nem pense em fechar o estabelecimento cedo que a noite vai ser longa. Não se sabia, até aquele momento, se a causa do encontro numa segunda, data em que a mercearia tinha as portas cerradas no início do escurecer, era por causa do jogo da Seleção Brasileira contra Honduras, ou o inverso. A Copa América, com o time de Felipão jogando miúdo, era capaz de ser um pretexto para uma noitada de algazarra.
Foi no que deu. Às nove, a turma já cercava pelo menos três mesas da mercearia do bairro da zona sul da cidade. Futebol? Quem estava preocupado com o bom desempenho de Denilson na partida contra o Paraguai? Embora os casados tivessem saído de casa no começo da noite, justificando assistir Brasil e Honduras com os amigos, ninguém, naquele momento, queria saber se Romário havia deixado de integrar a Seleção alegando necessidade de uma cirurgia, para depois, descaradamente, cumprir compromissos pelo Vasco.
Mas se falou de tudo mais da cidade: do plebiscito para a venda ou não da Sercomtel Celular, da greve que paralisou por um dia a coleta de lixo em Londrina, do esvaziamento do Igapó, do resultado da pelada de sábado e do ganhador da Megasena:
– Deve ser um cara rico. Não é qualquer um que tem coragem de gastar oitentão no jogo. Só falta alguém dizer que o ganhador não era de Apucarana e só estava de passagem pela cidade quando fez a aposta.
O aparelho de TV, com um colorido desbotado na tela de 14 polegadas, mais do que mostrar suas atrações havia cumprido papel de porta-copos, suporte para garrafas e base para a forma de alumínio onde eram colocados os espetinhos já no ponto. Rolaram garrafas, espetos, caipirinhas e conversas, até que Honduras fez 2 a 0 e o narrador, com raiva, soltou um grito de gol que parecia ter sido marcado pelo Brasil. A turma acompanhou:
– Gooooool...
Foi, aquela, a rara participação do time de Felipão na noitada daquela segunda. No mais, a turma bolou soluções para a greve na coleta de lixo, o problema do Igapó, a troca de goleiro para a pelada do próximo sábado e a polêmica da Sercomtel. Com o Brasil fora, a próxima rodada foi marcada para sexta.

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