- Precisa chover mais. Na semana passada, em dois dias, vendi mais de 40 guarda-chuvas. Agora taí, ó, esse monte de guarda-chuva pendurado e ninguém comprando.
Não precisa nem identificar o autor da frase, não é mesmo? Porém, se a pequena estiada de ontem já deixou o vendedor de guarda-chuva do camelódromo com saudade do aguaceiro que há mais de mês cai sobre Londrina, para outros a chuva já vai tarde.
‘‘O movimento já está ruim. Quando chove, então, fracassa. O freguês passa correndo e até os barraqueiros vão embora porque pinga tudo aqui dentro’’, relata o camelô Elizeu Martins.
Ainda no camelódromo, Alexandrina Pinho Santos desfia o seu rosário: ‘‘Ih, meu filho, quando chove fica uma calamidade, a gente sofre, pega friagem, dá cãimbra na perna de quem tem mais idade e a gente não dorme de noite de tanta dor.’’ E como a chuva molha tudo menos o bolso dos camelôs, Alexandrina conta que teve um dia na semana passada em que vendeu apenas R$ 2.
‘‘O problema é que, com chuva, o povo não anda. Se estivesse chovendo, essa senhora aí e as duas crianças - aponta com o dedo -, não estariam comendo o meu sanduíche’’, observa o ambulante Jonas Antero dos Santos. ‘‘As pessoas esperam firmar o tempo pra lavar o carro’’, comenta José Carlos de Almeida Monezzi, do posto Ypê, que calcula uma queda de 80% na lavagem de veículos nos dias de chuva.
Já o catador de papel, vive um dilema: com a chuva, o papelão encharca e, com isso, pesa mais; porém, se chove muito, ‘‘não tem jeito de trabalhar porque o movimento do comércio cai e tem pouco papelão’’, diz o catador Jacil de Souza. ‘‘Pelo risco que se passa no trânsito, o crime não compensa, pois o movimento aumenta muito pouco’’, observa o taxista Aparício de Oliveira, contrariando aqueles que acham ser a chuva um bom negócio para os motoristas de táxi.
E as lavanderias, ganham muito dinheiro? ‘‘É bom em parte. Com a chuva, a gente não pode lavar tapetes, painéis e roupas de festa que dependem de sol pra secar. Mas, não nego, a chuva deu uma melhoradinha boa no movimento’’, reconhece Maria Aparecida Escudeler, da lavanderia Vapt Vupt, sem esconder o ‘‘impasse’’ que às vezes a atormenta: ‘‘Fico enjoada da chuva, peço pra ela parar, mas, lembro do movimento, peço pra não parar.’’
Voltando ao camelódromo, os camelôs andam até fazendo comparações entre a chuva e Receita Federal que não larga do pé deles: ‘‘A chuva, a gente sabe que uma hora vai parar, mas a Federal... Com chuva ou sem chuva, chega e leva tudo embora’’, compara Alexandrina Pinho Santos. Já Elizeu Martins brinca: ‘‘A chuva é igual a Federal: quando ela anuncia que vem, muitos barraqueiros nem aparecem’’.

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