Se o Brasil ganhar, Ananias tira o Chevetinho da garagem
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quarta-feira, 19 de junho de 2002
Sid Sauer<BR>Sid Sauer 
Campo Mourão - Graças ao jogo do Brasil, Ananias não precisou trabalhar na segunda-feira de manhã. Por isso mesmo, assim que juiz jamaicano apitou o fim da partida, ele saiu para ver a festa da torcida no centro da cidade. Não sei se teremos outra festa. Os ingleses são fortes. Deram trabalho até nos tempos do Pelé, explicou à mulher.
Morador há vários anos de um bairro afastado na asa leste de Campo Mourão, Ananias retirou da despensa uma surrada Monark barra dupla circular. No celim, uma capa comemorativa ao título do Santos de campeão paulista de 1978. A bicicleta quase não era mais usada, uma vez que havia dois anos que Ananias realizara o sonho do carro próprio. Isso explicava as teias de aranha entre os raios da roda dianteira.
O servidor optou pela magrela porque ainda não tinha conseguido pagar a multa que levou por andar de Chevette com extintor com carga vencida. Isso foi quando ele levou a família no carnaval popular. Desde então, ele nunca mais se arriscou a ir de carro ao centro da cidade. Ananias morria de medo de levar uma outra multa.
E lá se foi Ananias com a velha Monark de pneu balão. No contorno em frente ao Cemitério Municipal, quase foi atropelado por um motorista que não respeitou a preferencial do ciclista. O carro estava a toda, buzinando sem parar e sacudindo uma camisa da seleção. Quando chegou no semáforo da Capitão Índio Bandeira, Ananias levou outro susto. Uma picape cheia de torcedores furou o sinal e por pouco não o atingiu.
Quando se aproximou do perímetro central, o barulho dos foguetes era ensurdecedor. Ananias esboçou um sorriso, mas nem pôde concluí-lo. Nesse instante, um rojão disparado por um motorista em festa veio em sua direção. Ananias só teve tempo de fechar os olhos.
Para sorte dele, o foguete bateu na garupa da barra dupla circular e se desviou. Explodiu perto, deixando Ananias com um zunido no ouvido, mas nada de grave. Já no calçadão, ele encostou a bicicleta em uma floreira e ficou apenas observando a festa. Logo se incomodou com o barulho. Era muita buzina, muito rojão, muito som no último volume. Foi outra coisa, porém, que deixou Ananias mais impressionado.
Na frente da Polícia Militar, todo mundo desrespeitava as leis de trânsito. Tinha motoqueiro sem capacete. Tinha carro levando gente no porta-malas aberto. Tinha passageiro com metade do corpo para fora do veículo. Tinha jovens pulando na carroceria de camionetas em movimento. Tinha criança no colo do motorista. Ah, se eu fizesse isso com o meu Chevetinho, refletiu Ananias.
Na volta para casa, ele não parou de pensar no que viu. E tomou uma decisão. Se o Brasil passar pela Inglaterra, vai pegar o Chevette e se arriscar numa passeata pelo centro. Sem pagar a multa nem recarregar o extintor. Ananias só não tem dinheiro para foguetes e bandeiras. Não precisa. O Chevetinho verde com coxinilho amarelo nos bancos e com o escape furado está pronto para festa. E que Deus salve o Ananias...


