Se não fossse a Casa do Caminho, estaria na rua
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de setembro de 1997
Londrina 
César AugustoBom caminhoSérgio Alves: Fui criado aqui dentroO trabalho desenvolvido pela Casa do Caminho começou há 10 anos, quando um grupo de espíritas, penalizado com a situação de miséria que vivia muitas crianças em bairros pobres e favelas de Londrina, passou voluntariamente a percorrer as ruas da periferia entregando pão e leite a quem necessitasse.
Mas uma constatação intrigou o grupo: ao lado das crianças que eram pobres, viviam mal mas tinham famílias e casas para morar, existia também uma outra categoria de crianças sem pai nem mãe, enfim, sem uma casa, sem um lar.
Sem contar ainda muitas outras que até teriam para onde voltar, depois de passar o dia nas ruas e praças, mas o ambiente familiar era tão ruim que elas preferiam ficar zanzando de um lado para outro e dormindo em qualquer lugar.
Você encontrava a criança na rua, estava chovendo e a gente não tinha para onde levar. Não existia na Cidade, na época, um albergue infantil, lembra a coordenadora da Casa do Caminho, Tânia da Silveira.
Na época, ela explica, o grupo desenvolvia um trabalho de assistência social na favela Marísia (zona norte), para a população de forma geral. Mas as crianças acabaram virando prioridade: o grupo alugou, por 30 mil cruzeiros ao mês (moeda vigente naquele tempo), uma chácara próxima de onde hoje funciona o Detran, também na zona norte, para abrigar as crianças sem casa. Estava montado e em pleno funcionamento, com estatuto e tudo, a primeira versão da Casa do Caminho.
Aí a gente saia catando criança na rua e levava para o chácara, aonde elas podiam, no mínimo, tomar um banho e jantar. Além da alimentação, toda semana um grupo voluntário ia até o local para dar palestras e orientações.
O trabalho foi tão bem sucedido que em pouco tempo as crianças assistidas pela Casa do Caminho já estavam completamente adaptadas a nova rotina. Aí eles não queriam mais ir embora, conta Silveira.
A entidade funcionou na chácara de setembro de 87 até abril de 88. Foi quando a família Prochet cedeu em comodato o prédio do bairro Aeroporto, onde a Casa do Caminho está instalada até hoje. Desde então, centenas de crianças passaram pela entidade, muitas delas que trabalham e estudam e hoje estão completamente integrados à sociedade de Londrina.
Se não fosse a Casa do Caminho, com certeza hoje eu estaria vivendo na rua. A afirmação é do auxiliar administrativo Sérgio Alves Moreira, 21 anos, que passou praticamente a vida toda morando no prédio do bairro Aeroporto, zona leste de Londrina, onde há nove anos funciona a entidade.
O motivo é que, antes de virar Casa do Caminho, o prédio já tinha abrigado duas outras instituições que atendem ao menor: MEL e Cedit (para menores infratores), hoje extintas.
E foi no Cedit que Sérgio viveu até quase os 10 anos de idade. Ele conta que nessa época a assistente social decidiu que ele já poderia voltar a viver com a mãe. Mas como ela trabalhava e morava em casa de família, Sérgio e o irmão acabaram sendo encaminhados à Casa do Caminho, que começava a funcionar no sítio da vila Iara.
Pouco tempo depois, ele retornava com os novos colegas e o irmão menor para o bairro Aeroporto, no mesmo prédio onde passara parte da infância. Fui praticamente criado aqui dentro, esta foi a minha única casa, um lar para mim e para meu irmão, diz.
Na Casa do Caminho, Sérgio pôde estudar - fez um curso de atendente veterinário na Universidade Estadual de Londrina (UEL) - e foi estimulado a trabalhar. Ele chegou a atuar na área veterinária mas, na primeira oportunidade, preferiu servir à própria entidade, onde hoje é empregado no setor administrativo.
Para o rapaz, o papel desenvolvido pela Casa do Caminho foi extremamente importante não só para o seu desenvolvimento pessoal como também para as pessoas que estão muito próximas a ele. Graças à Casa, por exemplo, minha mãe, que era alcoólatra, hoje está recuperada e também trabalha aqui. Por isso o carinho que eu tenho por isso é muito grande, aponta Sérgio.


