A falta de imposições de limites na infância pode repercutir como uma tsunami na adolescência e juventude. Quem faz o alerta é o psicanalista Ailton Bastos, acostumado a lidar com os conflitos de pais de adolescentes e dos próprios adolescentes. E casos como os de Curitiba, de Santo André e tantos outros que acontecem mundo afora podem, sim, ter relação com uma infância permissiva ou superprotetora.
  ‘‘Na atualidade, muitos pais estão criando seus filhos desde a infância sem limites. Esses filhos têm sempre a sensação de que podem tudo e acabam tendo baixa tolerância a frustrações, pensam que o que querem eles podem. Por outro lado, não são treinados para ter e assumir responsabilidades porque os pais, em muitos casos, os cercam para que não passem por nenhum tipo de sofrimento ou não sintam falta de nada’’, analisa o especialista. Por ter uma visão de mundo ainda em formação, acabam tendo um entendimento equivocado das coisas.
  Quando estes filhos batem à porta da adolescência são colocados à prova e tendem a reproduzir, ‘‘com uma lente de aumento’’, o modelo de comportamento que estavam acostumados na infância. E trazem consigo uma sensação de impunidade – ‘‘se eu quero, eu posso’’ – sem medir as conseqüências de seus atos. Isso vale tanto para questões envolvendo bens materiais quanto para os relacionamentos afetivos, como amizade e namoro. ‘‘Sempre existiram situações assim no mundo, mas temos percebido um agravamento destas situações na adolescência’’, avisa o psicanalista.
  Por tudo isso, Bastos convoca os pais a assumirem suas responsabilidades. ‘‘Os pais têm que ensinar seus filhos a perder. É claro que tem que ensinar a vencer, mas tem que ensinar a perder também, porque isso faz parte da vida’’, orienta. Ele diz que o papel de pai e mãe tem que ficar claro, sem excessos: é preciso conhecer os filhos, saber com quem eles se relacionam, conhecer as famílias dos amigos, fazer com que amadureçam, permitir que chorem e que enfrentem situações adversas. ‘‘Os pais precisam reassumir sua liderança sem autoritarismo’’, conclui.

mockup