Se armar é uma idiotice, afirma sociólogo da UEL
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quinta-feira, 20 de março de 1997
Da Redação 
Mário CésarTomazi: violência e injustiçasLondrina está hoje menos violenta do que era, por exemplo, na década de 50, quando todo mundo andava armado na Cidade; o problema é que a criminalidade e a violência que temos hoje são diferentes das existentes naquela época.
A opinião é do professor de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Nelson Tomazi. Ele está terminando o doutorado em História na Universidade Federal do Paraná, com uma tese que pesquisou e relata toda a violência em Londrina e região desde a chegada dos primeiros pioneiros, na década de 30, até os dias atuais.
A violência de hoje é consequência, um tipo de memória, da violência praticada aqui no passado; com alguns componentes novos, como o aprofundamento das desigualdades e injustiças sociais no Brasil todo, analisa Tomazi. As desiguldades são monstruosas, e mostradas no excesso de luxo e no aparato publicitário das emissoras de TV. Isto causa reflexos imediatos na classe pobre, nos desempregados que não têm dinheiro para a comida, para a escola dos filhos, para uma vida digna.
Segundo Nelson Tomazi, a preocupação de se armar para reagir à criminalidade é a mais idiota que existe. A pessoa compra uma arma, não sabe usá-la e, na primeira tentativa de assalto que sofrer - na rua ou em casa - reage e acaba sendo morto pelo ladrão. A arma gera a idiotia em quem a possui, porque a pessoa passa a se sentir mais poderosa do que é. E a pessoa compra a arma, na verdade, não para se defender, mas para agredir o outro. A pessoa armada fica tão violenta quanto o agressor que tenta roubá-la.
A saída, de acordo com ele, que já foi roubado duas vezes em Londrina - um videocassete dentro de casa e um automóvel de sua mulher na rua - é fazer seguros para a proteção dos bens materiais. Fica mais barato, não é perigoso e não gera novas violências. Porque se armar dá à pessoa a falsa sensação de que ela vai resolver o problema de insegurança. Isto é uma mentira. Não é ferindo ou matando um ladrão que vamos ajudar a diminuir a insegurança, que é um problema estrutural, maior e complexo.
De acordo com o sociólogo, há uma grande diferença entre tomar precauções que evitem a ação dos marginais e o exagero de zelo pelos bens materiais que leva à compra de armas de fogo. Há que se ter um limite para os cuidados com a segurança de nossas vidas e propriedades. A arquitetura das casas, estas fortalezas de hoje em dia, é uma loucura. São muros tão altos, cães violentos e tantas grades, que daí a família acaba prisioneira de si mesma; ela não está se protegendo, está se escondendo dentro da própria casa, uma prisão particular.
Ele explica que outro fator muito preocupante é a banalização da morte e consequente subestimação da vida. As pessoas deixaram que a questão da segurança da propriedade se tornasse uma obsessão. Há uma depreciação do valor da vida. O ato de matar passou a ser comum, banal. A propriedade passou, para muitos, a valer mais que a vida das outras pessoas. Isto é um absurdo.
(Osmani Costa)


