Rio de Janeiro – O brasileiro que quiser fazer uma cirurgia plástica sem correr risco deve evitar empresas intermediadoras que ofereçam muitas facilidades, como parcelamentos em até 40 vezes, por exemplo. O alerta é do diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Regional São Paulo (SBCP-SP), Luis Henrique Ishida.
Ele ressaltou que o crescimento da nova classe C, motivado pelas mudanças econômicas em curso nos últimos anos no país, tem criado "problemas importantes" para os médicos da área. "Porque a classe C emergente é um público que incluiu mais de 90 milhões de pessoas nos últimos anos, que são potenciais consumidores de cirurgias plásticas. Mas ele (consumidor) não é muito bem direcionado."
O problema, segundo Ishida, é que essas pessoas, no afã de fazerem cirurgias plásticas com as quais, muitas vezes, sonharam a vida inteira, acabam caindo nas mãos de operadoras ou intermediadoras, que fazem propaganda de médicos cuja atuação o Conselho Federal de Medicina (CFM) considera antiética e ilegal.
São empresas em que "uma pessoa atende e outra opera", denunciou o médico. Não há, segundo ele, nenhuma relação estabelecida entre médico e paciente como deve ser, e nenhum padrão de controle. "Essa mudança econômica, com esse perfil de que se tem uma mente aberta para a cirurgia plástica, acaba sendo perigosa do ponto de vista de saúde pública para esse paciente que vai (submeter-se à) cirurgia plástica a partir de agora".

Padronização
Além de expostos ao risco de morte, ao passar por procedimentos feitos por médicos que não são cirurgiões plásticos, os pacientes podem ficar com sequelas graves. Problemas funcionais, como paralisia facial, além de outros relacionados à própria cirurgia, entre os quais a má cicatrização e os maus resultados, são algumas dessas sequelas. Ishida destacou que, para quem não está satisfeito com a imagem, ficar pior do que já é torna-se a coisa mais terrível que pode acontecer, "porque estraga a vida da pessoa".
Existe uma padronização de certificados do cirurgião plástico com título de especialista que valida a habilitação de um bom profissional. Para saber se o médico tem título de especialista, a pessoa pode recorrer ao site da SBCP e fazer a consulta pelo nome do cirurgião. "Sendo cirurgião plástico, já é meio caminho andado, já passa uma segurança muito maior para o procedimento que se quer fazer". A providência constitui um mecanismo prévio de defesa do consumidor, disse Ishida.
O médico ressaltou que, para o leigo, a cirurgia plástica pode parecer um procedimento mais simples. "Muito pelo contrário. É o mais complexo. É a especialidade cirúrgica que tem a residência (período de especialização, que o médico faz depois de formado) mais longa entre todas, junto com a neurocirurgia e a cirurgia cardíaca. É realmente um problema de saúde pública."
Para obter o título de especialista em cirurgia plástica, o médico tem de fazer dois anos de residência em cirurgia geral e mais três anos em cirurgia plástica. No entanto, Ishida considera que nem mesmo os 11 anos de estudo (seis do curso de medicina e cinco de residência em cirurgia geral e cirurgia plástica) "são suficientes para formar um cirurgião plástico competente". Além do longo período de estudos, o profissional passa por um exame de qualificação teórico e prático conduzido pela SBCP, para obter o certificado de especialista, e manter uma educação continuada.

Per capita
O Brasil ocupa a terceira posição no ranking mundial em proporção de cirurgias plásticas por pessoa, com 4,6 procedimentos por mil habitantes – nos Estados Unidos, país líder em números absolutos, a proporção é 3,5 operações por mil habitantes, com 1,1 milhão de procedimentos em 2011. No mesmo ano, foram feitas no Brasil 905,1 mil operações.
Para Ishida, o volume de cirurgias plásticas per capita no país é significativo, porque mostra o perfil do brasileiro, "culturalmente mais aberto às cirurgias plásticas, sobretudo as corpóreas", devido ao hábito da população de mostrar o corpo na praia, diferentemente do que ocorre na maioria dos países.

Bariátrica
A SBCP quer incluir no rol de doenças tratáveis no Sistema Único de Saúde (SUS) as operações plásticas pós-bariátricas. A cirurgia barátrica, um dos tratamentos para combater a obesidade mórbida, consiste na redução de estômago. Com o emagrecimento resultante da cirurgia, o paciente fica com sobras de pele, que geralmente só podem ser corrigidas com operações plásticas de mama, de abdômen e de glúteos, como explicou Ishida. No começo de junho, representantes da entidade terão encontro com autoridades do Ministério da Saúde, em Brasília, para discutir a questão.

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