Saudosistas esperam a volta do trem
Walter Ogama
De Londrina
Um apito quase uivo anunciava a chegada dele. Espremidas nos bancos de madeira enfileiradas no saguão, as pessoas deixavam a ansiedade ir embora na medida que o barulho da máquina aumentava. Algumas delas estavam partindo, outras esperando por alguém.
Era o trem de passageiros chegando na Estação Ferroviária de Londrina, bem no centro da cidade, hoje transformada no Museu Histórico Padre Carlos Weiss. Quem estava de partida aproveitava os últimos minutos de permanência na estação para se abastecer com balas, que podiam ser compradas em um dos dois bares que funcionavam no local. Durante a viagem, refrigerantes poderiam ser pegos no restaurante da composição.
Laranjas descascadas, pacotes de amendoins torrados, saquinhos de pipoca, paçocas e outras tranqueiras dessas que as crianças costumam pedir durante as viagens não fariam falta. Essas coisas poderiam ser compradas no caminho, durante as paradas da composição, das janelas dos vagões onde os vendedores ambulantes apareciam em penca.
E o trem parava, desovando de seus vagões gente com malas e sacolas. Chegava gente solitária, que ao desembarcar lançava para o horizonte da cidade um olhar de quem estava perdido, procurando por um rumo para seguir a pé. Mas chegavam também pessoas esbanjando sorrisos, caçando no meio da multidão espalhada na rampa de desembarque algum rosto conhecido. Abraços, beijos e euforia cercavam algum reencontro.
Nelci Batista dos Santos, 47 anos, quatro filhos, fazia parte dessa história, que começou na década de 30 com a inauguração do tráfego ferroviário entre Jataizinho e Londrina, no dia 28 de julho de 1935 (dados do Inventário e Proteção do Acervo Cultural - Ipac-Ld, um projeto de extensão da Universidade Estadual de Londrina).
Em outubro do mesmo ano o trem chegou a Rolândia, alcançando Arapongas em 1941, Apucarana em 1943, Maringá em 1954 e Cianorte em 1973, segundo documentos do Ipac-Ld.
Casada com o ex-ferroviário José Ribeiro dos Santos, 54 anos, ela morava nas proximidades da estação. Hoje, a família mora no Jardim São José, na zona leste de Londrina, um bairro que concentra grande número de ex-ferroviários.
Nelci tinha na época apenas três filhos, todos meninos, que gostavam de viajar de trem. O mais velho hoje está com 32 anos e o mais novo 29. Além deles, nasceu já no Jardim São José uma menina, que hoje tem 18 anos. Os meninos gostavam da comida do trem. Viajávamos para Ourinhos e São Paulo. A viagem para São Paulo demorava 16 horas e o preço era quase a metade da passagem de ônibus, lembra a mulher.
Ela tem duas netas de 11 e 9 anos e um netinho de 2. A única viagem de trem de passageiros que as duas mais velhas fizeram foi numa das promoções que a Associação dos Feroviários de Londrina costuma organizar: a formação de uma composição com vagões de passageiros, para transportar saudosistas e pessoas que nunca andaram de trem num passeio até Rolândia ou Arapongas.
Quando eu era pequena andava de Maria Fumaça, relata Nelci, saudosa, referindo-se à antiga locomotiva movida à lenha. Se o trem de passageiros voltar, Nelci diz que vai matar saudades. Eufórica, ela conta que recentemente conversou com o marido sobre a possibilidade de uma viagem de trem, de Assis a São Paulo. Por pura vontade de andar de trem.
Tamanha saudade tem uma causa: em meados de março de 1981, o trem de passageiros passou pela última vez por Londrina e região, conforme mostra reportagem publicada no dia 14 de março daquele ano pela Folha. Uma das fotos que ilustram a página é expressiva: o funcionário da estação badala pela última vez o sino pendurado na cobertura da rampa de embarque e desembarque da estação. O tilintar anunciava a saída da composição e aquele foi o último aviso que o sino tocou. Depois o trem apitou, quase uivou, e foi embora para sempre.
Jacob Paulena Neto, 70 anos, vizinho de dona Nelci, foi maquinista da Rede Ferroviária Federal durante 35 anos. Começou a trabalhar como auxiliar, subiu para foguista aquele que alimentava com lenha as chamas que faziam a Maria Fumaça andar , ascendeu para as locomotivas a diesel e chegou a fazer estágio em trem elétrico. Eu morava perto da Rua Rio Grande do Norte, recorda. O tempo da máquina a fogo era sofrido, acrescenta.
Para ele, a saída de linha do trem de passageiros na região tirou o pão da boca de muita gente pobre. Era uma viagem demorada, mas econômica, relembra o ex-ferroviário. Por isso, Jacob fica animado com a possibilidade do trem de passageiros voltar ao Norte do Paraná. Só que é um trecho muito curto. Podia ser um jeito de se chegar até Curitiba, reclama.
Ele pode realmente voltar, como acredita Jacob. Na semana passada, parte de um estudo que está sendo feito pelo BNDES junto com a Coppea, uma empresa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi mostrada em Londrina e antecipa números que em 1981 tiraram o trem de passageiros da região.
Esses números, com base em 9.792 pessoas ouvidas por pesquisadores, dizem que 38% dos entrevistados utilizariam o trem de passageiros semanalmente se ele voltar a circular entre Londrina e Maringá, um trecho ferroviário de 119 quilômetros com população de 1.121.325 pessoas.
O BNDES e a Coppea estão analisando 64 trechos em todo o Brasil e, desses, o de Londrina-Maringá desponta como um dos que mais apresentam possibilidades de bom retorno financeiro. Seriam beneficiados com isso as populações também de Cambé, Rolândia, Arapongas, Apucarana, Cambira, Jandaia do Sul, Mandaguari, Marialva e Sarandi.
O estudo fica pronto em dois meses e a viabilização da volta do trem de passageiros exige um prazo mais longo: pelo menos um ano. Mas as passagens podem custar o mesmo preço que o de ônibus ou até 10% mais, conforme declarou à Folha um dos técnicos do BNDES envolvidos no estudo (Folha Economia, edição de 18 de fevereiro de 2000).
Clair Poggian, 67 anos, que trabalhou 31 anos e três meses na Rede Ferroviária Federal, boa parte desse tempo como garçom e cozinheiro nos restaurantes das composições, é outro que aplaude a possibilidade da volta do trem de passageiros. Também morador do Jardim São José, ele lembra que foi um dos funcionários encarregados pela Rede para trazer a Litorina de Santos (SP) para o Norte do Paraná.
A Litorina era uma locomotiva branca, ao contrário das máquinas de cor vermlho escura, com listas amarelas, que caracterizavam a companhia. O uso da Litorina era para a formação de uma composição de nível superior aos comerciais, com preços e atendimento durante a viagem mais caros. Não deu certo.
Já o menino Carlos Eduardo Leonel, 12 anos, estudante da 7ª série do primeiro grau, nunca andou de trem. Morador de um bairro de ex-ferroviários, Leonel bem que tem vontade, mas por ora não sabe nem qual seria a sensação de andar de trem.
Outros personagens dessa história que tiveram o trem inclusive como meio de sustentação poderiam dizer para Leonel qual é essa sensação. Que saudade do nosso trem, que tanto progresso deu à região. O trem é transporte prioritário em países de Primeiro Mundo e está fazendo muita falta aqui, diz o prefeito de Londrina Antonio Belinati (PFL), filho do ex-ferroviário José Belinati.
Até que o sonho seja transformado em realidade, um dos locais que serve como parada dos trens de carga em Londrina, no Jardim Maria Lúcia (zona oeste), em nada se parece com a estação transformada em museu. O barulho ali é de caminhões que trazem ou levam cargas. O movimento é feito por alguns funcionários da América Latina Logística, nome da empresa privada que assumiu o transporte ferroviário de carga na região. A locomotiva, agora cinza com listas amarelas, faz manobras no pátio, saindo de uma linha e entrando na outra, empurrando uma dezena de vagões e puxando outra. Ninguém para badalar o sino.Estudo que aponta viabilidade do transporte ferroviário de passageiros no Norte do Paraná anima quem já balançou sobre os trilhos
Arquivo FolhaMARÇO DE 1981O último aviso: ato do funcionário da Estação Ferroviária chamando passageiros para embarque não se repete há 19 anosCésar AugustoCésar AugustoA manobra hoje na estação do Jardim Maria Lúcia (ao lado) e a lembrança do trem de passageiros no Museu Pe. Carlos Weiss (abaixo)César AugustoJacob Paulena Neto, 70 anos, 35 deles como ferroviário





