Saúde tem arma contra a cesariana
Saúde tem arma contra a cesariana
Enfermeiro ganhará igual o médico para fazer o parto normal; medidas para melhorar a saúde da mulher entram em vigor amanhã
Valmir Denardin
Ney de SouzaOtimismoMaria Goretti David Lopes, presidente da Associação Brasileira de Enfermagem: medida diminuirá cesárias A decisão do Ministério da Saúde de pagar aos enfermeiros o mesmo valor pago aos médicos pela realização de partos normais, em hospitais públicos, vai reduzir o número de cesarianas no Brasil - o mais alto índice do mundo -, humanizar o atendimento à gestante, valorizar o profissional e baratear os custos do Sistema Único de Saúde (SUS).
A avaliação é da presidente da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben), Maria Goretti David Lopes, que mora em Foz do Iguaçu.
A remuneração idêntica pelo serviço faz parte de uma série de medidas tomadas pelo ministro José Serra, com o objetivo de melhorar a saúde da mulher. A assessoria de imprensa de Serra informou à Folha que esse conjunto de medidas começa a vigorar amanhã, com o primeiro pagamento em julho.
Hoje, o SUS paga R$ 12,00 por um parto normal feito por enfermeiro e R$ 45,00 quando o mesmo procedimento é realizado por um médico.
O valor equiparado que passará a ser pago ainda não está definido mas, segundo a assessoria do Ministério, poderá superar a quantia hoje recebida pelo médico.
Na opinião de Maria Goretti, o primeiro reflexo da medida será a redução drástica no número de cesarianas.
Hoje, os médicos não têm tempo de acompanhar uma gestante durante todo o trabalho de um parto normal, que dura de 12 a 15 horas, em média. Por isso, eles marcam logo o horário da cesária, afirma a presidente da Aben.
De acordo com esse raciocínio, o enfermeiro tem mais tempo no hospital do que o médico. Enquanto o médico é um profissional liberal, que atende em vários hospitais e clínicas, o enfermeiro tem vínculo de emprego com o hospital onde trabalha, cumprindo jornada de seis a oito horas diárias.
Segundo Maria Goretti, apesar de mal remunerado, o parto normal feito por enfermeiros já é uma prática nos hospitais brasileiros. Isso está correto, porque temos competência, preparo profissional e prática, enumera. Só éramos vítimas de um sistema injusto. O Brasil tem 70 mil enfermeiros com nível superior e 280 mil médicos.
A equiparação no pagamento deverá também valorizar o trabalho do enfermeiro e humanizar o atendimento à gestante nos hospitais. Isso porque, além do tempo maior para atender a paciente, a maioria dos profissionais dessa área são mulheres.
Barateamento Outro benefício será o barateamento dos procedimentos, já que o parto normal dispensa anestesia, medicamentos e o trabalho de médicos, necessários para a cirurgia da cesariana.
Segundo Maria Goretti - que defende a causa desde 1995, quando assumiu a Aben - , a medida do Ministério da Saúde atende a resolução número 5 da Conferência Mundial da Saúde de 1996, que prega o fortalecimento da enfermagem obstétrica. Promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), a conferência é o principal evento anual sobre programas de saúde no mundo.
Essa prática é disseminada nos países que têm os mais desenvolvidos sistemas públicos de saúde, como a Europa e, na América do Sul, o Chile, afirma.





