Saúde sofrerá colapso em dois meses
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sábado, 05 de abril de 1997
Antonio França Sucursal de Foz do Iguaçu 
Ney de SouzaContagem regressivaFila de pacientes no PAM: longa espera nos postos e hospitais com menos leitos pelo SUSFaltam dois meses para o sistema público de saúde de Foz do Iguaçu entrar em colapso. No início de junho, a Santa Casa Monsenhor Guilherme, principal hospital da cidade, deixará de atender pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Para as autoridades do setor, o descredencimento do hospital é uma crise anunciada.
A saúde pública em Foz do Iguaçu vem recebendo ameaças desde 94, quando o ex-prefeito Dobrandino da Silva (PMDB) anunciou que fecharia postos de saúde e a Santa Casa prometia encerrar atividades do Centro Cirúrgico e do Pronto-Socorro. A promessa do ex-prefeito não se cumpriu, mas ele reduziu o horário de atendimento dos postos. Dobrandino teve quatro secretários de saúde em sua administração.
O que está acorrendo já era previsto. Infelizmente, ninguém fez nada para evitar o caos, instiga o deputado estadual Sérgio Spada (PSDB), que recentemente não conseguiu internar na Santa Casa uma tia com problemas de infecção. A tia do deputado morreu no mesmo dia.
No final do ano passado, a Santa Casa anunciou a crise e fechou o Pronto-Socorro e parte do Centro Cirúrgico. Com essa decisão, o corpo clínico está atendendo apenas as emergências, casos em que o paciente corre risco de vida. As urgências (quando o paciente não corre risco de vida, mas necessita atendimento imediato), são encaminhados ao Pronto Atendimento Médico (PAM).
Leitos Foz do Iguaçu tem o mais baixo índice de leitos hospitalares do Paraná. São 457 leitos para uma população de 236 mil habitantes. Desse total, apenas 132 estão à disposição do SUS. Com a ameaça do descredenciamento da Santa Casa, os leitos do sistema cairão para 62. Ou seja, um leito para cada 4.150 habitantes do município.
A cidade está longe de se enquadrar nas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que indica um leito para cada 500 habitantes. Se comparada com Cascavel, cidade próxima a Foz do Iguaçu e com população idêntica, a disparidade se torna mais evidente. Os habitantes de Cascavel têm um leito para cada grupo de 280 habitantes.
Segundo o Pronto Atendimento Médico, Foz do Iguaçu fez rota inversa das cidades de médio porte. Ao invés de atender pacientes de cidades vizinhas com pouca estrutura, Foz está exportando 70% dos doentes para serem internados em pequenos municípios da região.
A crise O fim do atendimento da Santa Casa pelo SUS deixará como opção apenas os hospitais de Itaipu (HI), Maternidade Iguaçu e Internacional, que reservam somente 62 leitos para o sistema público.
Ainda assim, esses hospitais reservam pouco espaço para o SUS. Nenhum deles atende ambulatório nem Pronto-Socorro. No HI, as internações são feitas apenas com programação. Não podemos atender Pronto-Socorro, ambulatório nem ampliar os leitos para o SUS. Isso dependeria de investimentos e a Itaipu já deixou de fazer investimentos nesse setor, diz Ricardo Foster, presidente da Fundação Itaiguapy, que administra o Hospital de Itaipu.
A capacidade da Santa Casa é quase totalmente ocupada pelos pacientes do SUS. Segundo o superintendente do hospital, Décio Zenone, 87% dos atendimento são reservados a pacientes do sistema público.
Para justificar a crise, ele afirma que os repasses do SUS cobrem apenas 20% dos custos com os pacientes e alega atraso nos pagamentos das AIHs (Autorização de Intenação Hospitalar). O SUS paga apenas R$ 3,50 por uma diária hospitalar. Pela consulta médica, são pagos R$ 2,50. A Santa Casa de Foz não é a primeira no Brasil a fechar suas portas e também não será a única. A crise bateu em nossa porta e chegou nossa vez, diz.
Incompetência O diretor da 9ª Regional de Saúde, Alceu Bizeto, concorda que os repasses são insuficientes para cobrir os custos dos hospitais. Porém, classifica a atitude da Santa Casa como precipitada. Quem se mostra incompetente para gerenciar os atuais recursos, nunca vai ter reajuste na verba que recebe, ameaçou o secretário estadual da Saúde, Armando Raggio, numa visita que fez a cidade na última sexta-feira.
A dívida da Santa Casa, segundo o superintendente, soma R$ 3,6 milhões. O que temos para receber chega R$ 1,7 milhão. Se recebermos tudo o que devemos, ainda teremos um deficit de mais de R$ 1,8 milhão, explica Zenone.
A situação em Foz se agrava com o atendimento de brasiguaios (brasileiros que moram em municípios paraguaios na fronteira). No PAM, onde centenas de doentes são obrigados a enfrentar filas na madrugada para se conseguir uma consulta, 18% dos atendimentos feitos por mês são de pessoas que cruzam a fronteira em busca de um médico.
Sistema No dia 29 de setembro do ano passado, o Conselho Municipal de Saúde levou ao secretário a proposta de transformar o atual convênio com o Governo do Estado em Gestão Plena. O convênio atual traz recursos na ordem de R$ 650 mil para todo o sistema público de saúde. Com a Gestão Plena, a cidade receberia até R$ 3,5 milhões mensais. É a nossa meta, mas o caminho é lento, diz o diretor de Saúde da Prefeitura, Dilson Alves.


