SAÚDE PÚBLICA - 'Muitas pessoas não acreditam na vacina'
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terça-feira, 12 de junho de 2018
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 

Há mais de três décadas o trabalho da virologista Marilda Agudo Mendonça Siqueira é acompanhar de perto a circulação dos vírus que impactam a saúde pública no Brasil. Ela é pesquisadora titular da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo, que atua em parceria com o Ministério da Saúde, OMS (Organização Mundial de Saúde) e Opas (Organização Pan-Americana de Saúde).
Nas últimas semanas, a pesquisadora esteve em Londrina e conversou com a FOLHA. Foi enfática ao dizer que a gripe é uma das doenças que mais mata no mundo. "Todos os anos morrem pessoas de gripe. Este ano já morreram 280 pessoas até a 20ª semana epidemiológica (final de maio) no Brasil e assume-se que em todo o mundo de três a cinco milhões de hospitalizações por ano ocorrem pelo vírus influenza."
Ao ser questionada se a gripe é subestimada pelos brasileiros, Siqueira diz não ter dúvidas. "Como moramos em um país tropical, temos um comportamento diferente do hemisfério norte diante de uma infecção respiratória. Enquanto eles não saem de casa, se protegem, a gente trabalha, sai de casa transmitindo o vírus para um monte de gente. O corpo precisa descansar e o brasileiro não tem essa percepção", afirma.
Ela cita também que ainda há muita confusão no que se refere à imunização. Neste ano, a campanha de vacinação contra a gripe foi estendida até sexta-feira (15) para contemplar o maior número de pessoas nos grupos de risco (crianças entre seis meses e cinco anos incompletos; gestantes; puérperas; trabalhadores da área da saúde; professores; idosos; populações indígenas e doentes crônicos).
No Paraná, até sexta-feira (8), a cobertura vacinal era de 81% do total previsto, conforme dados da secretaria estadual de Saúde. No entanto, há uma parcela de homens e mulheres que não tomam vacina porque, segundo a pesquisadora, não acreditam nos efeitos dela.
"Muitos que tomaram a vacina e ficaram gripados adquiriram, na verdade, outro vírus que estava em circulação e como a sintomatologia é muito parecida, muitas pessoas não acreditam na vacina", comenta.
Sob este entendimento, ela diz que a vacina anti-influenza deveria ser dada antes, entre final de março e começo de abril. "Mas ela é dada em uma época que já se tem vários vírus circulando, mas vale lembrar que a vacina da gripe é só para o vírus influenza H1N1, H3N2 e Influenza B", diz.
Além disso, está em curso um movimento antivacina que segundo ela, não tem base científica nenhuma. "As vacinas foram uma conquista do desenvolvimento científico tecnológico. A água tratada, os antibióticos e as vacinas foram os agentes que fizeram as doenças infecciosas diminuírem em todo o mundo", completa.
Entretanto, o registro de mortes entre pessoas entre dois e 60 anos de idade, que não possuem nenhuma doença de base e que teoricamente não deveriam morrer pelo vírus influenza, tem sido um ponto de interrogação para os pesquisadores.
De acordo com a especialista em gripe, há várias teorias em andamento. Uma delas é que na pandemia de 2009 alguns adultos jovens tiveram uma produção de anticorpos tão alta que acabou fazendo o vírus antígeno com o anticorpo. "Essa união acaba se depositando em alguns órgãos e levando a algumas doenças", explica.
Outra hipótese é que alguns indivíduos têm em seu pulmão receptores celulares para o vírus influenza em maior quantidade que outras e assim, podem ser acometidos por uma pneumonia com mais facilidade pelo vírus influenza. "O vírus influenza não é oportunista, como algumas bactérias. Estas sim podem chegar ao pulmão que está debilitado pela infecção do vírus influenza e aumentar a severidade da doença. No entanto, a gente sabe que o influenza por si só pode causar uma infecção a nível pulmonar que é suficiente para causar uma doença muito grave e levar à morte", acrescenta.
O vírus também tem uma relação com a imunidade por ter um espectro muito grande que varia de pessoa para pessoa. "Se o indivíduo tem imunidade suficiente para combater o vírus, ele pode fazer uma infecção mais leve que é o que a maioria da população apresenta. A gente imagina que a cada epidemia de influenza em torno de 10% a 20% da população é afetada, isto é, pega o vírus. Mas a manifestação de gravidade ocorre em poucas pessoas", aponta.
É o mesmo caso do VSR (Vírus Sincicial Respiratório), que circula de abril até agosto, junto com o influenza, especialmente no sul e sudeste do País. Ele causa infecção respiratória aguda que pode ser leve em um adulto, mas em idosos e crianças menores de dois anos de idade, a taxa de ataque é grande e pode causar quadros mais graves. Nos bebês, a complicação mais frequente é a bronquiolite (infecção nos bronquíolos).


