Política pública é toda ação governamental que visa implementar direitos fundamentais à população, por meio da prestação eficiente de serviços pelo poder público. Neste contexto, o governo federal criou em 2009 a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), com objetivo de ''derrubar os obstáculos, principalmente culturais, que impedem os homens de frequentar os consultórios médicos''.
No mesmo ano foi definido um conjunto de metas e ações a serem atingidas até 2010. No Paraná, com população masculina de mais de 5,1 milhões, três municípios - Apucarana, Arapongas e Maringá - e mais a Capital foram classificados para darem a largada para a implementação da medida. Mas até agora, pouca coisa mudou e a faixa etária estabelecida como prioritária continua sem acessar os serviços de saúde.
Para orientar os primeiros 54 municípios que deveriam implementar a PNAISH, o Ministério da Saúde elencou uma série de ações prioritárias em um Plano Nacional (2009-2011), orçado em R$ 613,2 milhões. Dividido em nove eixos, o plano previa a transferência de parcela única de R$ 75 mil para cada secretaria estadual de Saúde e para cada um dos municípios escolhidos. O dinheiro deveria servir para incentivar a elaboração e implementação de estratégias e ações focadas na população masculina até o terceiro trimestre de 2010.
O Ministério também se comprometia a distribuir 26,5 milhões de cartilhas com informações sobre câncer de próstata, o segundo mais comum entre homens, e mais 6,52 milhões de cartilhas sobre direitos sexuais e reprodutivos, e métodos anticoncepcionais. Outra meta era aumentar em 20% ao ano o financiamento de ultrasonografias transrretais, passando de 78 mil (2008) para 110 mil (2010). Buscava-se também acrescer em 10% ao ano o financiamento para cirurgias de doenças e cânceres do trato genital masculino: de 100 mil em 2008 para 121 mil em 2010.
Exceção
Em checagem nos municípios paranaenses que primeiro implementaram a PNAISH, a FOLHA apurou que, no geral, pouca coisa mudou e o homem definido como prioritário - aqueles entre 20 e 59 anos - continuam em sua grande maioria não acessando os serviços de saúde ou buscando ajuda só quando adoecem.
Exceto Maringá, que já havia criado o Programa de Saúde do Homem um anos antes da ação nacional, os municípios ainda estão na fase de confecção de material de divulgação para ser distribuído à população alvo, até porque só em agosto de 2010 receberam seus R$ 75 mil. São ainda raras as ações específicas para os homens.
As secretarias municipais de saúde de Arapongas, Apucarana e Curitiba informaram que só os médicos foram capacitados e que as abordagens aos homens sãos feitas por meio do programa Estratégia Saúde da Família, antigo Programa Saúde da Família (PSF), e de outras iniciativas já existentes, como os grupos de hipertensos, diabéticos e os núcleos de atividades físicas (Nasf). Mas essas ações, embora surtam algum efeito, atingem homens acima dos 60 anos que já frequentavam as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e não aqueles que não se previnem, intenção primeira da PNAISH. Outra preocupação, como bem lembrou o diretor de Serviços em Saúde de Apucarana, José Leopoldo de Souza, é garantir meios para fazer frente ao aumento da demanda.
Deixado de lado
Com 36 anos, o porteiro morador de Apucarana (Norte), Ronaldo Carlos de Oliveira, descobriu que era diabético há pouco mais de um ano. Só soube da doença por causa da forte tontura e das dores de cabeça que sentia. ''Nunca tinha feito exame nenhum. Homem é assim: só vem no médico quando já está doente. Acho que é porque tem menos tempo'', comentou ele, que passou a tomar medicação diária distribuída em uma unidade de saúde.
Em Arapongas (Norte), o agente de saúde Orandir Marcos da Silva, 47 anos, reclamou da falta de serviço específico para o público masculino. ''A mulher tem toda a atenção e o homem é deixado de lado. Falta um local para atender os homens naquilo que eles realmente precisam'', opinou. Na comunidade em que atua, ele disse que é interpelado por homens - sobretudo jovens - mas só o que pode fazer é orientá-los a procurar uma unidade de saúde, o que muitos deixam de seguir.

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