Imagem ilustrativa da imagem Saúde confirma segundo caso de sarampo no Paraná
| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Com o avanço no número de casos de sarampo em todo o País, o MS (Ministério da Saúde) “corre” para aumentar a cobertura vacinal das crianças, público mais suscetível a casos graves e óbitos. A partir desta quinta-feira (22), todas as crianças a partir de seis meses a menores de 1 ano devem ser vacinadas contra o sarampo. Já são 1.681 casos confirmados da doença em 90 dias, em 11 estados, sendo que São Paulo Lidera, com 1.662 ocorrências. No Paraná são dois casos confirmados.

O segundo caso do Paraná foi confirmado pela Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) na quarta-feira (21). Um morador de Curitiba, de 54 anos, contraiu a doença no início de agosto em uma viagem para estados com área de surto. Ele está sob cuidados médicos e passa bem.De acordo com a secretaria da Saúde de Curitiba, ele não tinha registro de vacina contra o sarampo. O primeiro caso da doença no Estado após 20 anos foi registrado há algumas semanas, quando uma mulher de 41 anos viajou de Campina Grande Sul (Região Metropolitana de Curitiba) para São Paulo.

O caso já havia colocado o Paraná em situação de surto ativo. Além das confirmações, 16 casos estão sob investigação, aguardando os resultados de exames. De acordo com a assessoria de comunicação da Sesa, uma das suspeitas é em Rolândia, na Região Metropolitana de Londrina. O município integra a 17ª RS (Regional de Saúde).

COBERTURA ABAIXO DO RECOMENDADO

Há uma estimativa de que uma pessoa que contrai o vírus do sarampo pode contaminar até 20 pessoas que não estejam vacinadas. Se isso acontecer, um cenário de epidemia pode se formar em pouco tempo, colocando em risco a saúde de toda a população.

É isso que vem ocorrendo no Brasil, após duas décadas sem registro do sarampo (fato que rendeu ao País um certificado de eliminação da doença em 2016). Alguns especialistas ouvidos pela FOLHA destacam que a volta do sarampo no País se deve, principalmente, pela queda da cobertura vacinal contra a doença associada à circulação de pessoas entre países, a exemplo do que ocorreu em Roraima, com a chegada dos venezuelanos.

De acordo com o boletim epidemiológico da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), o sarampo foi identificado em 14 países entre janeiro e julho de 2019, sendo a maior proporção nos Estados Unidos, seguido do Brasil e Venezuela. Para barrar essa cadeia de transmissão viral, só mesmo a imunização. Por isso, a meta de cobertura vacinal para a tríplice viral é de 95%. “O número é suficiente para eliminar a circulação do vírus”, comenta o infectologista Chaie Feldman, que atua no setor de Medicina do Viajante, no Instituto de Infectologia Emilio Ribas (SP) .

O fato preocupante é que a cobertura vacinal está abaixo do recomendado em praticamente todas as regiões do País. No Paraná, a cobertura é de 82% em crianças até 15 meses de idade até julho de 2019, ou seja, 13% abaixo do indicado. “Se considerarmos apenas a primeira dose, a taxa é de 88.68%. Mas consideramos a segunda dose por conta da maior proteção. Estando a cobertura vacinal em 83%, é claro que o risco do vírus se propagar é maior”, afirma Nasr.

REGIONAL DE LONDRINA

Na 17ª RS, que engloba Londrina e outros 21 municípios, a cobertura da segunda dose da tríplice viral de janeiro até agosto de 2019 é de 54%, o que coloca a unidade na 9ª posição entre 22 regionais com menor cobertura. A menor taxa registrada até o momento pela Sesa é a 1ª RS de Paranaguá, com 33%.

Nasr diz que a média de cobertura vacinal no Estado é uma das melhores no Brasil. Um relatório do Datasus considerando todas as regiões brasileiras mostra uma cobertura média de 64% (de segunda dose) até 23 de julho de 2019. A região Sul é a que apresenta o maior índice com 80%, seguida do Centro-Oeste (75%), Norte (62%), Sudeste (61%) e Nordeste (56%).

MOVIMENTO ANTIVACINA

Em junho de 2018, a FOLHA entrevistou a virologista londrinense Marilda Agudo Mendonça Siqueira. Ela é pesquisadora titular da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e ocupa a chefia do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo. Ela comentou sobre as grandes campanhas de controle do sarampo nos países em desenvolvimento a partir da década de 1990 e sobre o movimento antivacina. “Não há nenhum fundamento científico. As vacinas foram uma conquista do desenvolvimento científico tecnológico. A água tratada, os antibióticos e as vacinas foram os agentes que fizeram as doenças infecciosas diminuírem em todo o mundo”, pontuou.

Se atualmente se fala muito em fake news em temas de saúde, o “pontapé” para muitas famílias deixarem de vacinar os filhos surgiu também de uma “notícia"' que se espalhou pelo mundo, sem comprovação científica. Em 1998, o médico inglês Andrew Wakefield publicou um paper em uma revista conceituada, apontando uma possível relação da vacina tríplice viral com autismo. Comitês internacionais fizeram quatro anos de pesquisa e revisão da literatura e não encontraram nenhuma relação. “Até hoje, a gente paga essa conta”, disse a pesquisadora.

Recentemente, um estudo realizado pelo Instituto Serum Statens, publicado em março deste ano na revista Annals of Internal Medicine reforçou que a vacina tríplice viral não aumenta a probabilidade de desenvolvimento de TEA (transtornos do espectro do autismo). O trabalho foi feito pelas universidades de Copenhagen, na Dinamarca, e Stanford, nos Estados Unidos. Foram analisados os registros de saúde de mais de 650 mil crianças dinamarquesas, nascidas de 1999 a 2010, a partir do primeiro ano de vida até 31 de agosto de 2013.

Ao todo, 6.517 indivíduos haviam sido diagnosticados com TEA, e a razão de risco entre os vacinados e não vacinados foi semelhante. Os autores também verificaram que a tríplice viral não aumentou a incidência quando consideradas as variáveis sexo, período de nascimento, administração das demais vacinas oferecidas gratuitamente, histórico de irmão(s) com TEA e presença de alguns fatores de risco, a exemplo da prematuridade, baixo escore de Apgar, fumo durante a gestação, entre outros.

A publicação foi divulgada pela SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) e reforça que, em 2010, descobriu-se que Wakefield tinha solicitado registro de patente de uma nova vacina contra o sarampo e recebido patrocínio de escritórios de advocacia envolvidos em ações de famílias de crianças autistas contra a indústria farmacêutica.

“As fake news interferem na capacidade de discernimento de adesão à vacina. Mas as pessoas devem saber que ela está disponível, é gratuita, confere proteção, tem efeitos adversos leves, é segura e eficaz”, completa a coordenadora de Vigilância Epidemiológica da Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) do Paraná, Acácia Nasr.

DOSE ZERO

A medida preventiva do Ministério da Saúde busca alcançar 1,4 milhão de crianças que não receberam a dose extra, chamada de “dose zero”, da tríplice viral, que protege também contra a caxumba e rubéola. Para isso, serão enviadas 1,6 milhão de doses a mais para os estados.

Esse esquema não altera o Calendário Nacional de Vacinação, ou seja, as crianças receberão normalmente a primeira dose da vacina aos 12 meses e a segunda aos 15 meses. “É importante ter as duas doses porque a proteção chega em torno de 97%. Por isso que nos registros de cobertura vacinal são consideradas as crianças que tomaram a segunda dose da vacina”, afirma a coordenadora de Vigilância Epidemiológica da Sesa, Acácia Nasr

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O infectologista Chaie Feldman, de São Paulo, destaca que o sarampo em crianças menores de um ano pode ser mais grave ."Normalmente, a vacina não é dada nessa faixa etária porque a criança recebe anticorpos da mãe, mas em situações de epidemia é preciso proteger o maior número de crianças pelo risco de complicações”, ressalta.

A Sesa garante que todas as unidades básicas de saúde estão com estoque de tríplice viral. O tempo de efeito da vacina no organismo é de aproximadamente 15 dias.

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