Toda manhã, pacientes das unidades de terapia intensiva e semi-intensiva do Hospital do Coração de Londrina recebem uma visita inusitada: a dentista Camila Liberatti vai até os leitos para atender internos muitas vezes entubados e até inconscientes. Segundo ela, ''na boca existem mais de cem milhões de tipos de bactérias. Numa pessoa com a saúde debilitada, torna-se vital mantê-las sob controle, pois o perigo de uma infecção aumenta muito.''
Pesquisas sobre o assunto têm sido realizadas desde 1998. Na Câmara Federal, tramita um projeto de lei que torna obrigatória a presença de profissionais de Odontologia nas UTIs, bem como em clínicas e hospitais públicos ou privados em que existam pacientes internados. Apresentado em fevereiro deste ano, o projeto destaca a necessidade de incluir o ''tratamento odontológico, com higiene oral adequada, dada a inter-relação entre doenças orais e sistêmicas''.
''Na Santa Casa de Misericórdia de Barretos, no interior de São Paulo, onde o serviço é pioneiro no País, o índice de pneumonia, principal infecção hospitalar, caiu 85% com a presença do dentista'', comenta a profissional, que atende 11 leitos de UTI e seis pacientes da unidade semi-intensiva de segunda a sábado.
Ela descreve que os pacientes são classificados e os que estão entubados, sedados ou são mais idosos e debilitados ficam sob a responsabilidade dela. Já os internos mais jovens são tratados pela equipe de enfermagem, sob a supervisão da dentista. A remoção da placa bacteriana já era feita pelos enfermeiros com o uso de um enxaguante bucal. Hoje, os doentes são tratados pela dentista, que utiliza uma gaze para higienizar toda a boca do doente. ''Vale a pena investir no dentista, pois o cuidado bucal diminui o custo com o diagnóstico e o tratamento da pneumonia'', opina Camila.
Segundo ela, entre as doenças que podem ser evitadas com o tratamento bucal está a endocardite-bacteriana. Mas o foco do trabalho no Hospital do Coração é o combate à pneumonia, que pode ser fatal. ''Há uma redução considerável no tempo de recuperação dos pacientes. É possível reduzir em até quatro dias a internação'', reforça a dentista, contando que no início os internos eram mais resistentes, mas já se acostumaram ao procedimento.
Bem-estar
Para o psicólogo do Hospital do Coração, Clóvis Zanetti, a proposta do serviço é dar melhores condições de recuperação, promovendo bem-estar dentro e fora do hospital. É um trabalho de prevenção, orientação e conscientização. ''O bem-estar do paciente reflete na família, que fica mais confiante na equipe médica. E o doente sorri mais, fica mais cheiroso e mais confortável.''
Para Carli Aguiar, filha do músico Nicodemus Alves de Aguiar, que foi vítima de Acidente Vascular Encefálico (AVE) e está internado há mais de 20 dias, a higiene bucal é uma garantia a mais para o sucesso do tratamento médico. ''O trabalho do dentista é significativo e minimiza a preocupação dos parentes, que sempre temem a ocorrência de infecção.''

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