Saúde bucal não é prioridade para a maioria
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terça-feira, 28 de abril de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
Cuidar da saúde bucal não é prioridade para mais da metade da população brasileira. Falta de tempo e de vontade são desculpas para deixar a escovação de lado. Tatiana Luíza de Andrade dos Santos, de 24 anos, moradora do bairro Parolin, em Curitiba, encaixa-se nesse perfil. Sabe da importância em cuidar da higiene bucal, mas nem sempre coloca em prática a teoria. "Informação a gente tem, é que as vezes bate uma preguiça", reconhece ela.
Apesar de escovar o dentes três vezes por dia, Tatiana afirma não ter certeza se sua escovação é adequada. "O dentista orienta como fazer, mas as vezes as gente não faz certo", diz. Outra dúvida em sua casa é em relação ao tempo de uso da escova. "Acabei de trocar, mas não sei de quanto em quanto tempo eu devo fazer isso. A outra estava meio velha", diz.
Pesquisa recente divulgada pelo Ministério da Saúde apontou que 58% dos brasileiros não usam adequadamente a escova de dentes. Além dos que não podem comprar (ou não consideram um item prioritário diante de outras necessidades), o percentual inclui aqueles que não fazem escovação correta, ou não a praticam no número de vezes necessário, ou, ainda, que usam a mesma escova por período muito prolongado.
Na casa da diarista Lucimara Iris de Carvalho, também no Parolin, somam-se dois problemas: a filha, de 10 anos, que não escova corretamente os dentes, e a correria do dia-a-dia que a impede de cobrar da filha a higiene bucal adequada. "Às vezes é tudo tão corrido que a escovação fica a desejar", justifica. Pelo menos, a substituição da escova de dente é feita regularmente. "Trocamos de três em três meses", garante.
Para a balconista Rosângela Soares, de 28 anos, que mora em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, falta de tempo não é argumento para descuidar do sorriso. "A saúde bucal é muito importante. Além disso, a primeira impressão é a que fica. Não adianta a pessoa ser linda e não ter um belo sorriso", acredita. Mesmo com o dia turbulento de trabalho em uma padaria em Curitiba, Rosângela assegura que coloca a escovação em primeiro lugar. "Escovo todos os dias, sempre depois das refeições, e não consigo ficar sem passar fio dental", afirmou.
O número apontado na pesquisa do Ministério da Saúde ainda é preocupante, mas, nos últimos cinco anos, o Brasil conseguiu um pequeno avanço. Em 2003, o índice de acesso zero à escova de dente chegava a quase 65% da população. O aumento no número de pessoas que passaram a integrar o mercado de trabalho, segundo avaliação do governo federal, teria ajudado a reduzir esse índice.
A dificuldade financeira interfere na qualidade da higiende bucal, mas esse não é o único fator. A pesquisa revelou que o mau uso da escova de dentes é generalizado - atinge praticamente todas as classes sociais e regiões do País, das mais longínquas e pobres às mais industrializadas e desenvolvidas. Ou seja, grandes capitais, como Curitiba, não estão imunes à índices desfavoráveis.
Para a chefe da Divisão de Saúde Bucal da Secretaria de Estado de Saúde, Michelle Shiristie Abbond, a combinação entre baixo poder aquisitivo e falta de educação em higiene bucal contribuem para os altos índices apresentados pelo levantamento do Ministério da Saúde. "Há uma combinação dos dois fa. Além de não ter acesso ao produto, muitos não procuram um profissional para avaliar a saúde bucal. Poucos fazem a prevenção", avaliou Michelle.
A intenção do governo federal com o programa Brasil Sorridente, é melhorar o nível de saúde bucal no País em um prazo de dez anos. O Ministério da Saúde tem espalhado pelo País 18 mil equipes de saúde bucal, que fazem parte do programa Saúde da Família. Existem ainda mais de 650 centros especializados dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).
De acordo com o Ministério da Saúde, a meta do governo para este ano é que 100% das equipes de saúde bucal tenham kits compostos por escova e pasta de dente. Muitos desses kits deverão ser distribuídos para alunos do ensino fundamental e médio de escolas públicas localizadas em áreas de baixo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). No total, escolas de quase 1,2 mil municípios brasileiros irão receber os kits.


