SAÚDE - Quando a oscilação do humor vira doença
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de agosto de 2005
Andréa Lombardo<br>Equipe da Folha 
Curitiba Oscilações de humor todo mundo tem. Mas quando isso se dá de forma muito intensa e imprevisível, levando a extremos de depressão ou euforia, os altos e baixos deixam de ser um comportamento natural e passam a ser encarados como doença. Esse transtorno mental é o que a psiquiatria define como bipolaridade ou transtorno bipolar, antigamente conhecida como psicose maníaco-depressivo.
O médico psiquiatra e pesquisador em neurociências, Diogo Lara, lançou, esta semana, em Curitiba, seu primeiro livro sobre o tema ''Temperamento Forte e Bipolaridade - Dominando os altos e baixos do humor''. Ele diz que apesar de não ser recente, esse tipo de transtorno ainda é pouco comentado e desconhecido para a maioria das pessoas. ''Parece um terreno meio delicado falar de bipolaridade. O tema acaba ficando restrito aos consultórios psiquiátricos. Por isso, fiz o livro. Para tirar debaixo do tapete'', afirmou. Segundo Lara, estima-se que de 6% a 8% da população mundial tenham algum grau de bipolaridade, maior ou menor.
A bipolaridade, definiu o psiquiatra, é a oscilação de humor, entre período de alto quando a pessoa fica mais impulsiva, eufórica, exuberante, arrisca-se mais, fica mais acelerada e fases mais depressivas, de tristeza, desânimo, apatia, falta de energia, excesso ou alteração de sono. ''A bipolaridade significaria uma desregulação de humor que, geralmente, está incompatível com o meio ambiente, com o humor dançando fora do ritmo da música'', reforçou. Frequentemente, o transtorno bipolar está relacionado a pessoas de temperamento forte. No entanto, assim como o temperamento, a bipolaridade é uma característica herdada geneticamente.
Lara usou como exemplo a tendência que algumas pessoas têm para engordar, enquanto outras se mantêm magras, mesmo comendo bastante. No plano emocional, segundo ele, também é assim. ''As emoções básicas de medo e raiva tem uma distribuição diferente nas pessoas. As pessoas de natureza mais emocional, que são dos extremos, de medo ou de raiva, tendem a ter alguma alteração de humor'', esclareceu o psiquiatra, lembrando que, as pessoas que têm medo demais, tendem a puxar esse sentimento para a depressão e as pessoas que têm raiva demais, impulso demais, tendem a puxar para a bipolaridade.
Os transtornos de humor podem, aparentemente, não representar nada de grave. Afinal, que mal haveria em uma pessoa estar eufórica, cheia de energia? O alerta do psiquiatra recai, justamente, sobre essa pseudo-alegria. ''O mal é que ela bota os pés pelas mãos e, em algum momento, terá fases depressivas perigosas e sofridas'', advertiu.
Outro fator preocupante, destacou Lara, é que são nas fases chamadas de mistas que envolvem ansiedade, impulsividade, excitação de forma turbulenta que os pensamentos suicidas afloram com mais frequência. ''Muitas vezes, um ato suicida é meio impulsivo. Não é que a pessoa venha pensando em se matar. O sofrimento é tão grande, no momento, que ela acaba, impulsivamente, tentando suicídio. Então isso pode ser uma coisa bastante grave'', apontou o médico. De acordo com Lara, em torno de 10% a 12% das pessoas com bipolaridade cometem suicídio.


