SAÚDE - Hepatite C, uma doença silenciosa
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quinta-feira, 10 de março de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Silenciosa, como um icerberg à deriva, a hepatite C desafia a saúde pública mundial. Apesar dos avanços tecnológicos para diagnosticar a doença, ainda só se consegue ver a ponta dos estragos da moléstia emergente, que navega tanto na corrente sanguinea de países do primeiro escalão econômico, como em nações pobres como a África.
Estima-se que existam 500 milhões de pessoas com o vírus no mundo. No Brasil, a taxa é de 0,9% a 2,8%, com destaque para a Região Sudeste. Porém, o choque desses números com a subnotificação dos casos causaria uma explosão da incidência. O alto custo do tratamento e o fato de os pesquisadores não saberem por que algumas pessoas desenvolvem a virose são páreos duros para o combate à doença.
Uma pesquisa realizada pelo Hospital Universitário (HU) com grupos de doadores de sangue e portadores de HIV no ano passado, apontou a prevalecência de 0,3 a 0,8% entre os doadores. Portadores que podem representar a população de Londrina em geral, já que antes do exame sorológico para hepatite C e o diagnóstico, o doador de sangue é sempre considerado uma pessoa saudável. Traduzida, a porcentagem revela que para cada mil londrinenses, de três a oito carregam no sangue o vírus, que leva até 20 anos para mostrar a ''cara'', já em fases adiantadas da doença, quando evoluiu para a cirrose e câncer de fígado.
A incidência da hepatite C entre os aidéticos em Londrina segundo grupo investigado pela pesquisa do HU chama a atenção. ''A contaminação com o vírus de hepatite C é elevada entre os aidéticos. São 22,3% em Londrina. É uma ponta do iceberg. Existem muitas pessoas que estão infectadas e não sabem. Os números que temos são subnotificados. Não estamos bem de situação porque não conhecemos os números reais dos infectados'', aponta a professora de Imunologia Clínica do Centro de Ciências da Saúde do HU, Edna Vissoci Reiche, que acompanhou a pesquisa. O trabalho não levou em consideração o sexo dos examinados, que tinham faixa etária entre 30 a 40 anos de idade.
O professor titular de Doenças Infecciosas da Universidade Estadual de Londrina, José Luís Baldy, viaja até o homem das cavernas para dizer como são antigas as hepatites, afirmando que desde que o mundo é mundo, o organismo trava uma batalha contra o vírus. ''A doença não é nova, mas o conhecimento sobre ela sim. O vírus é transmitido da mesma forma que a hepatite B, através de relações sexuais e usuários de drogas, que compartilham seringas'', explica a médica pediátrica e sanitarista Josemari de Arruda Campos, diretora de Epidemiologia e Saúde Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde.
Em 1992, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou que os bancos de sangue passassem a fazer exames para a hepatite C. O Ministério da Saúde chegou a convocar pessoas que receberam transfusões de sangue até a data para tentar conter o avanço da doença. ''Hoje existem pessoas que estão manifestando a doença e que fizeram cirurgias antes da determinação, tendo sido infectadas com sangue contaminado'', lembra Josemari.
Proporcionalmente maior por uso de seringas contaminadas que através de relação sexual, a contaminação com hepatite é silenciosa. A infecção aguda é inaparente em 90% dos casos.
Em 2004, a 17 Regional de Saúde confirmou 55 casos, sendo sete em Cambé, 44 em Londrina e quatro em Rolândia. Este ano já foram diagnosticados dois casos, um em Londrina e outro em Cambé. Algumas dessas pessoas entram para as estatísticas sem que os pesquisadores saibam explicar a forma de contaminação.
''Acompanhei uma senhora, de 56 anos, que me chamou a atenção ao apresentar um quadro de hepatite aguda, com confirmação para a forma 'C''', exemplifica Josemari, acrescentando que a paciente não fazia parte de grupos considerados de risco, o que revela que o bloco submerso da doença esconde números que podem surpreender as autoridades de saúde.


