Imagem ilustrativa da imagem SAUDADE E DOR - Vidas em suspensão
| Foto: Marcos Zanutto
Manoel e Meirian à espera de Fabíola, que desapareceu há 18 anos: "Se morresse era diferente, mas sumiu. Fica uma ferida por dentro"


O dicionário traz vários significados para a palavra desaparecido. Mas para muitas famílias significa saudade, dúvida e dor. A saudade da ausência. A dúvida sobre o seu paradeiro, se está vivo ou morto. A dor de não ter uma resposta. A vida fica em suspensão.
"Sento no sofá e parece que toda hora ela está chegando em casa. Penso: mês que vem ela chega; no Natal ela vem. Fica essa espera." O relato é um pai que não perde a esperança de que a filha volte para casa.
No dia 5 de dezembro de 1998, Fabíola Gonçalves Pontes, na época com 14 anos, disse para o pai Manoel Gonçalves Pontes, de 64, que ia cuidar das vacas, na beira da linha férrea, em Rolândia (Região Metropolitana de Londrina), para ele poder descansar. Foi a última vez que Pontes falou com a menina. Ela desapareceu sem deixar pistas.
A alegria de viver deste pai também desapareceu naquele dia. "Dá muita saudade. Não é fácil; perdi a vontade tudo", comentou, com os olhos cheios de lágrimas. "Queria que ela entrasse em contato. Se ela não quer vir, tudo bem. Mas que pelo menos ela ligue e diga: 'pai, tô viva e tô bem, só que não vou voltar'. A gente ficaria tranquilo".
A vida de Vera Lúcia Pereira da Silva, de 57, também entrou em compasso de espera. O filho desapareceu em 1992, com seis anos de idade, durante a ExpoLondrina. "Você vai se conformando aos poucos, porque não tem outra coisa para fazer. Não tem como correr atrás. É sentar e esperar", disse.
Essa dúvida sobre o paradeiro de um ente querido pode causar estresse pós-traumático. "A pessoa vive em trauma. Ela não sabe se o desaparecido está passando fome ou frio; e a pessoa nunca perde a esperança do reencontro. Como não houve um corpo não há como fechar a história", comentou a professora e psicóloga Ana Maria Addor, especialista em família e casal e supervisora clínica da Unifil.
Quem passou por uma situação dessa vive, segundo a psicóloga, como se carregasse uma bola de prisioneiro. Ela segue a vida, trabalha, mas a ferida permanece aberta. "A família não consegue esquecer. Fica com a sensação que precisa continuar procurando", afirmou Ana Maria.
Os primeiros meses do desaparecimento são os mais aterradores, comentou a professora. A pessoa fica em suspensão. "Com o tempo ela segue com a vida, mas não consegue acalmar o coração."
Ana Maria aconselha que as famílias busquem ajuda, principalmente de grupos de apoio. "É importante participar desses grupos de ajuda, onde se trocam experiências. Porque é ingenuidade alguém de fora dizer para uma mãe seguir em frente. Ela nunca vai desistir de um filho. Mas ouvir de outra mãe como conseguiu tocar a vida pode ser curador."
A tristeza e a saudade tendem a aumentar neste período de festas, quando as famílias se reúnem. Por isso, em casos de depressão, a psicóloga sugere buscar ajuda de um profissional. "Com ajuda profissional, ela vai ficar triste, mas não vai cair", ressaltou Ana Maria.
A psicóloga também disse que os familiares e amigos precisam respeitar esse momento. "Temos a síndrome do verão, em que todo mundo tem que estar alegre. Mas a tristeza existe e, às vezes, é preciso deixar a pessoa que passou por uma perda entristecer. O importante é respeitar o sentimento", afirmou.
Este será mais um Natal de aflição na casa dos Pontes. "A gente nem tem vontade de fazer festa. Os parentes chamam para eu ir lá, mas não vou, não. Fiquei bem afastado de tudo. Se morresse era diferente. Mas sumiu. Fica uma ferida por dentro", declarou Pontes, que mora na mesma casa com a mulher Meirian.

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