Saudade da minha terra
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terça-feira, 20 de agosto de 2002
Benedito TelesEquipe da Folha 
Não teve jeito, assim como o sol obriga o galo a cantar o caboclo parou. Apesar da cidade grande, dos automóveis, das sirenes e buzinas ele a viu e parou. A viola fixada num pedestal na vitrine, por momentos, tocou. A roça, o ''mio'' e o café, as criações e o terreiro, as modas e a passarada tudo estava lá. No momento em que a grande porta de vidro da loja de artefatos musicais abriu e o caboclo entrou, imediatamente, viu o terreirão de café.
À medida em que caminhava ele não entrava na sofisticada loja de instrumentos musicais instalada num shopping da metrópole. O caboclo via um estradão, escoltado por fileiras de café, as ruas limpas e o grão maduro à espera da peneira. No momento em que foi interpelado, de modo elegante e educado, pela atendente ele agradeceu. Disse apenas que queria vê-la. Sentiu a brisa leve durante a cavalgada e o gosto de uma laranja colhida na hora.
Lembrou de uma vida, ou melhor, de várias vidas. A voz de compadres e comadres, no domingo, em meio a prosa. Escutou as músicas de ''Santos Reis'', viu a procissão chegando na sede da fazenda e sendo recebida pelos proprietários. Ouviu as ladainhas e a benção dos membros da comitiva. Sentiu o cheiro forte da pinga e do suor dos homens na lida do café. A porta que acabara de atravessar parecia uma porteira e cada coluna um mourão. Ouviu novamente o mugido da vaca, o barulho do leite na ordenha e a gritaria das crianças.
A atendente, finalmente, a entregou. O caboclo pegou a viola, como se pega um cálice ou uma mulher. Forçou o ouvido e, atentamente, percebeu o som com as mãos enquanto afinava. Em seguida, pigarreou e a tocou. Apesar do esforço, comedido, da atendente os movimentos eram lentos, tão lentos que os relógios pareciam cansados. O caboclo então viu um baile e os companheiros de moda, de tropa e de roça. Não entendia, mas sentia até o cheiro de terra molhada.
Fechou e abriu as mãos como se orasse e, então, dedilhou sobre as cordas brilhantes uma canção. Os fás, os lás e os dós saiam um após o outro e a mão enrugada e calejada, era ágil como um novilho, mas consistente como uma tropa. O ritmo cadenciado lembrava um carro de boi e a melodia parecia o estalar da quebra de milho ou do abano de café. Um sorriso amarelo e largo, então, voltou ao caboclo. Ele lembrou dos netos e das modas que tocava, viu em cada pessoa que passava um irmão, então finalmente como se cantasse disse: ''Público aceite aquele abraço apertado, aquele boa noite do Zé'', e cantou como se tivesse voltada para casa.


