Telma Elorza
De Londrina
Policiais militares da Ronda Ostensiva de Natureza Especial (Rone), do 5º Batalhão da Polícia Militar, em Londrina, estão sendo acusados de terem espancado, na noite de terça-feira, a estudante F.O.S., 17 anos. A adolescente teria sido algemada e agredida pelos sargentos Isacar e Rosa, após reclamar da velocidade desenvolvida por uma viatura da Rone. A estudante foi submetida, ontem pela manhã, a exame de corpo delito no Instituto Médico-Legal (IML).
Segundo a garota, ela estava indo para casa, no Jardim Paraíso (zona norte), com duas amigas, após o término das aulas noturnas na Escola Estadual Professora Behair Edna Mendonça, no mesmo bairro. ‘‘A gente estava perto do colégio e a viatura saiu em alta velocidade, em sentido contrário ao nosso. Eu achei um absurdo e falei, em tom normal, que eles estavam correndo muito’’, contou. Segundo F., os policiais estavam olhando para elas e, no mesmo momento, a viatura fez o contorno e voltou. ‘‘Ele, o sargento Isacar, já chegou perguntando bravo o que eu tinha falado. Eu repeti, perguntando se eles estavam loucos para correr daquele jeito perto de uma escola.’’
A adolescente contou que o sargento Isacar – ainda dentro da viatura – agarrou-a pelos cabelos e gritou para ela não brincar com a polícia. ‘‘Eu disse que não estava brincando, que eles estavam correndo muito. E ele me disse que eu estava presa.’’ De acordo com a adolescente, quando o policial a agarrou pelo braço, as amigas, D.A.M., de 17 anos, e E.B., 18 anos, sairam correndo para chamar os pais de F., enquanto ela resistia à prisão. ‘‘Eu falei que não tinha feito nada, que era menor e que só iria com eles junto com meus pais.’’
Segundo a estudante, o sargento a jogou contra o capô e torceu seu braço direito enquanto tentava algemá-la. ‘‘Ele tentava pegar o esquerdo e eu resisti. Aí ele torceu meu polegar e eu comecei a gritar de dor. Ele foi ficando mais nervoso e começou a me xingar, usando palavras pesadas’’, afirmou. A menina disse que quando o sargento tentou empurrá-la para dentro da viatura, ela se jogou no chão e agarrou uma parte do carro. Enquanto isso, a confusão foi atraindo mais gente, que tentou intervir. ‘‘Acho que eles pediram reforços porque chegou um monte de viaturas.’’
Segundo a amiga E.B., quando retornou ao local com os pais de F., já havia mais sete viaturas paradas. ‘‘Os policiais desceram dos carros já batendo no povo, que não queria que eles levassem a F.. Eles apontaram até as armas para a gente’’, afirmou. Com as novas equipes, chegou também a Sargento Rosa, que tentou dominar a garota. ‘‘Ela me pegou pelo cabelo e me puxou, gritando para mim ir logo para dentro da viatura e me chamando de vagabunda’’, contou a adolescente.
De acordo com a menina, ela deve ter acertado acidentalmente o rosto da policial com os braços, no meio da confusão. ‘‘Não sei se relei nela ou não, mas ela me pegou pela garganta e começou a apertar e me deu um tapa na cara, dizendo: ‘Bata na minha cara agora’. Eu implorava, vou entrar, não faz isto não, por favor’’, explicou.
Segundo F., quando os policiais a estavam levando para a delegacia central, na rotatória da Avenida Henrique Mansano a fizeram trocar de viatura. ‘‘A sargento Rosa mandou eles pararem e disse: ‘Ela vai comigo, que agora o negócio é comigo’. Ela me tirou da viatura, me xingando e dando tapa e murro na minha cabeça. Quando chegamos no outro carro, ela me atirou para dentro, eu bati a cabeça e me cortei.’’ Até na hora de ser encaminhada para a cela a policial continuou a espancá-la. ‘‘Eu estava sangrando muito e outro policial disse que eu precisava ir para o hospital. Ela falou que eu podia era ir para o inferno.’’
A mãe de F., Vanda Oliveira Santos, não se conformava ontem com as agressões sofridas pela filha. ‘‘O que fizeram com ela não se faz nem com um cachorro. Olha a calça dela, suja de sangue, ela que nunca fez mal pra ninguém na vida’’, chorava. Para a mãe, tudo o que ela quer é justiça. ‘‘Eu preferia estar morta e enterrada a ter que ver o que eu vi ontem (terça). Mas nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida, estes animais têm que pagar, têm que ser expulsos. Nem bandido pode ser tratado assim.’’ Segundo ela, só um dos policiais, das oito viaturas envolvidas – com cinco PMs cada – , não participou da confusão que foi a prisão da adolescente.
De acordo com o advogado da família, Vlamir Antônio da Silva, ele vai esperar o laudo do exame de corpo delito para depois discutir com os pais quais as medidas a serem tomadas contra os policiais. ‘‘Nós temos centenas de testemunhas e temos vários caminhos, cíveis e criminais. Mas, com certeza, vamos entrar com uma representação junto ao 5º Batalhão contra os sargentos Isacar e Rosa’’, explicou. O laudo do exame deve sair em uma semana.
No dia 16 de outubro, a sargento Rosa Maria de Oliveira se envolveu em um episódio parecido em Cambé, no Jardim Novo Bandeirantes. Após o arrombamento seguido de furto em um supermercado, a ação de quatro policiais da Rone terminou em confronto entre a PM e moradores da região. Na perseguição aos ladrões, os policiais invadiram uma lanchonete. Os frequentadores do local se rebelaram contra eles.
Comadada pela sargento Rosa Maria de Oliveira, a equipe da Rone chegou a utilizar recursos como balas antimotim (feitas de polipropileno, produzem forte barulho quando disparadas e estouram espalhando pequenas bolinhas), granadas de efeito moral e bomba de gás lacrimogêneo para controlar a situação. Frequentadores e o dono da lanchonete se queixaram contra o uso desnecessário de força. (T.E.)F.O.S., 17 anos, foi espancada e apreendida porque reclamou da velocidade de uma viatura da PM perto da escola onde estuda
Fotos Josoé de CarvalhoCENAS DA VIOLÊNCIAAdolescente mostra camiseta ensanguentada. Abaixo, a mãe Vanda Oliveira Santos, revoltada: ‘‘O que fizeram com ela não se faz nem com um cachorro. Olha a calça dela, suja de sangue, ela que nunca fez mal pra ninguém na vida’’

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