São Martinho: água abundante e de graça
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de setembro de 2005
Guilherme Gouveia<br> Reportagem Local 
Rolândia Enquanto o Brasil joga fora 46% da água coletada, gerando desperdício, prejuízos financeiros e à saúde pública, a comunidade de São Martinho, distrito de Rolândia (25 km a oeste de Londrina), tem o privilégio de viver sem a preocupação com a escassez do precioso mineral. Em países desenvolvidos, e até mesmo nos chamados em desenvolvimento, a conservação dos recursos hídricos é tratada como prioridade, através de campanhas de conscientização e medidas governamentais de proteção. Em São Martinho, pelo menos por enquanto, a realidade é outra. Além da abundância, o fornecimento de água é gratuito há mais de 30 anos.
Um conjunto de dez minas e um poço artesiano, cravados no centro de uma reserva ambiental, abastece uma população de aproximadamente 2,5 mil habitantes. As minas escorrem pelo Córrego dos Bandeirantes, afluente do Paranapanema, e formam um dos principais reservatórios hídricos da região. Como o líquido flui em abundância, um espelho d'água se forma ao lado da bomba que faz a sucção até a estação de tratamento.
No caso de São Martinho, fartura não é sinônimo de desperdício, embora existam alguns casos isolados tem sempre uma dona de casa que abusa na hora de limpar a calçada ou um chefe de família que lava o carro duas vezes por semana. De acordo com o administrador do distrito, Eugênio Serpelone, o consumo médio local varia de 10 mil a 12 mil litros por família ao mês. ''É claro que isso é uma média. Tem família que gasta oito, outra que gasta 16'' ilustrou. Levando em conta os números fornecidos por Serpelone, o consumo em São Martinho é inferior à media estadual, que gira em torno dos 13,5 mil litros/mês ou 13,5 metros cúbicos por família (números oficiais da Sanepar).
As família que exageram e abusam do benefício são repreendidas quando necessário. Um funcionário da prefeitura se encarrega de fazer a leitura dos hidrômetros hoje, cerca de 300 das 400 residências cadastradas possuem o mecanismo de contagem. ''Nenhum boleto de pagamento é emitido, mas controlamos o desperdício. Se uma família abusou, a gente repreende'', garantiu. ''Se o consumo estiver muito alto, existe ainda a possibilidade de vazamento, que procuramos solucionar o mais rápido possível''.
De acordo com o administrador, o consumo atual, de aproximadamente 7 milhões de litros por mês, caiu cerca de 40% nos últimos oito meses. Como o prefeito de Rolândia garantiu que vai implantar o sistema de cobrança (leia nesta página), a população já começou a se policiar. ''Acho que é uma coisa automática, eles terão que se acostumar com essa nova realidade'', ponderou Serpelone.
Esse é o caso do aposentado Alcides Toloto, de 55 anos, morador do Conjunto Habitacional Etore Martini, onde quase 100% das casas possuem hidrômetros. Desde que ficou sabendo da novidade, começou a monitorar mais de perto o gasto da família. ''Sempre falo em casa que economia de água é uma coisa importante. Não tá todo mundo falando que um dia vai faltar? Tô fazendo então minha parte. Além do mais, quero estar preparado quando começar a cobrança''.
A dona de casa Maria Evilauza Romanin, 40, também está preparada. Sabia que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. ''Não concordo não, mas não tem jeito, tem que pagar. Ficar sem água é que não dá''. Dona Maria também dá exemplo de cidadania ao evitar o desperdício. ''Nunca esbanjei não. Sei que um dia ela vai acabar e vai ser muito cara. Faço o meu serviço sem abusar, torço a roupa e aproveito a água para lavar a calçada'', garantiu.


