Dimitri do Valle
De Curitiba
A administração da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba é acusada de conivência com um esquema de privilégios. Ele envolve desvio de recursos, empregos para apadrinhados e falta de acesso dos pacientes carentes a equipamentos hospitalares usados apenas em consultas particulares. O vice-provedor da instituição, coronel de artilharia José Newton Rodrigues Romeiro, montou um dossiê com cerca de 2 mil páginas para comprovar as irregularidades que serão encaminhadas à Procuradoria da República. Romeiro alegou que tentou enxugar as despesas e por isso começou a sofrer perseguições.
‘‘Eles acabam usufruindo da filantropia conquistada pela Santa Casa para fugir do fisco’’, relatou. Uma estimativa de Romeiro indica que a contabilidade da Santa Casa deixa de registrar a entrada de recursos que podem oscilar mensalmente entre R$ 100 mil a R$ 200 mil. ‘‘Vai tudo para o bueiro. Ninguém sabe qual o fim que é dado a estes recursos’’, afirmou. Enquanto um grupo de 15 a 20 pessoas ligadas à diretoria, entre eles médicos, têm salários que vão de R$ 3 mil a R$ 5 mil, o vice-provedor diz que 80% do quadro de médicos recebem salários irrisórios.
O provedor da Santa Casa, Ary de Christan, negou a existência do esquema. ‘‘Nós não temos irregularidades’’, rebateu. O representante da instituição disse que as denúncias apresentadas por Romeiro representam apenas ‘‘um ponto de vista pessoal’’ do vice-provedor. ‘‘Ele é meu amigo há 40 anos. Se tem alguma mágoa, não é comigo’’, respondeu. Christan afirmou que o maior salário da instituição é de R$ 1,9 mil. ‘‘Aqui quase todo mundo trabalha de graça porque somos uma entidade filantrópica’’, mencionou. Christan disse ter estranhado as denúncias do amigo de longa data.
José Romeiro foi convidado por Christan para ser o vice-provedor da Santa Casa em 1996. O coronel de artilharia do Exército disse ter testemunhado ‘‘vícios terríveis’’ de ‘‘altos funcionários da diretoria’’ para se beneficiar das isenções fiscais oferecidas à Santa Casa de Misericórdia. A mais grave é em relação a importação de modernos equipamentos hospitalares. ‘‘Os equipamentos estão em nome da Santa Casa, mas quem faz o comando é um corpo de funcionários do alto escalão. São de 15 a 20 pessoas que reagem a tentativa de qualquer mudança no estilo de administrar’’, disse. Através do domínio exercido pelos ‘‘grupinhos’’, como Newton chama os desafetos, famílias carentes não podem usufruir dos equipamentos. ‘‘Só usa quem paga’’, afirmou.
Outra denúncia de Romeiro é contra o laboratório da Santa Casa que é terceirizado. ‘‘Aquilo é uma máquina de ganhar dinheiro, mas o pessoal paga um aluguel irrisório, entre R$ 2 e R$ 3 mil, para usar uma área gigantesca de 3 mil metros quadrados’’, acusou. Só de horas extras, a Santa Casa, segundo o vice-provedor, gastava até 30% da folha de pagamento. O hospital tem um déficit de caixa de 1,7 milhão desde janeiro. O vice-provedor insiste que o saldo deveria estar ‘‘pelo menos empatado ou positivo’’.
Ari de Christan garante que a Santa Casa mantêm o acesso livre de pacientes carentes aos equipamentos hospitalares. A defasagem de caixa, segundo ele, é resultado do Plano Real. ‘‘Nós temos uma despesa maior que a receita devido ao Plano Real’’, defendeu-se.Vice-provedor montou dossiê com 2 mil páginas comprovando privilégios e desvio de recursos para encaminhar à Procuradoria da República
Kraw PenasAcusaçãoJosé Newton Romeiro diz que diretoria usufrui da filantropiaDefesaO provedor Ary de Christan nega esquema ou irregularidades

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