Santa Casa ameaça reduzir atendimento
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terça-feira, 23 de fevereiro de 1999
Lucilia Okamura 
A Santa Casa e o Hospital Infantil de Londrina acumulam um déficit de mais de R$ 9 milhões, referentes à defasagem dos valores recebidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A crise enfrentada pelas duas instituições foi anunciada ontem de manhã pela diretoria da Irmandade Santa Casa, que pede ajuda do poder público. Se a situação não melhorar, afirmam diretores, o atendimento a pacientes pode ser restringido.
Os problemas enfrentados pela irmandade começaram em 1994, com a implantação do Plano Real, segundo o provedor em exercício da Santa Casa, Davi Peres. Houve um congelamento do pagamento pelo SUS enquanto que os valores dos medicamentos, insumos e folha de pagamento têm aumentado significativamente, afirma. Segundo dados da irmandade, nos últimos quatro anos, o aumento dos custos hospitalares foi de cerca de 110%.
Exibindo relatórios e gráficos, o superintendente da Santa Casa, Fahd Haddad, ressalta que 70% dos pacientes atendidos são do SUS, cujos valores da tabela estão defasados. Este seria o motivo do déficit acumulado. Para exemplificar, Haddad informa que a internação de um paciente politraumatizado custa, em média, R$ 806,14, enquanto que o SUS repassa R$ 333,58 - o que representa 41,38% da cobertura total. Uma diária na enfermaria, segundo dados do hospital, custa R$ 67,48 e o SUS envia R$ 6,38.
Fazendo um balanço do primeiro semestre de 94 até o segundo semestre do ano passado, a irmandade chegou a um déficit total de R$ 9.192.792,89. O valor ultrapassa os R$ 10 milhões se forem contabilizados os 11 transplantes cardíacos já realizados na Santa Casa e que não foram pagos pelo SUS. Estamos pleiteando o credenciamento para transplantes cardíacos, observa Haddad.
A irmandade é formada, além da Santa Casa e Hospital Infantil, pelo hospital Mater Dei. Questionado sobre a aquisição das duas últimas unidades, mesmo vivendo uma crise financeira, Haddad afirma que o objetivo foi justamente aumentar a receita de convênios para poder combater o déficit do SUS. Se não tivéssemos feito isso (compra) naquele momento, talvez estaríamos com esta situação (crise) ocorrendo há três ou quatro anos, ressalta.
O Hospital Infantil foi adquirido em 95 e o Mater Dei no ano seguinte. O superintendente diz que a situação do Hospital é crítica, mas que o Mater Dei está conseguindo cobrir despesas com receita própria e sobrando um pouco.
Haddad garantiu que a Santa Casa não pensa em se descredenciar do SUS, mas ressalta que, se a situação não melhorar, os atendimentos poderão ser reduzidos. O diretor clínico da Santa Casa, Miguel Alves Pereira Júnior, observa que não existe prazo para a restrição acontecer. Vai depender da demanda, explica. Vamos restringir o atendimento para não colocar em risco a vida do paciente, acrescenta.
Haddad informa que alguns fornecedores também reclamam da defasagem da tabela do SUS para determinados materiais. Mas, mesmo com as dificuldades, ele garante que o atendimento está normal. Pereira Júnior afirma que não estão faltando medicamentos e nem material básico. Ocasionalmente, emprestamos por horas ou um dia medicamentes do Hospital Universitário, mas esta é uma rotina entre os hospitais, esclarece.


