Sanepar exige fiador para abastecer invasores
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de março de 1997
Adriana De Cunto 
Marcos Borges
Acima, placa delimita lote. Ivani garante que se mudarão 32 famílias. Albonetti está preocupado com a ocupação
As famílias que invadiram, na última sexta-feira, um fundo de vale entre os conjuntos Ilda Mandarino e Parigot de Souza 3 (zona norte de Londrina) vão ter que apelar para a Promotoria dos Direitos Constitucionais para conseguir a instalação de uma torneira comunitária. É que a conta atrasada de água dos sem-teto da Cidade já está em torno de R$ 115 mil - segundo informação do Departamento Social da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab) - e a Sanepar está se recusando a colocar o serviço sem um fiador.
As torneiras comunitárias são instaladas nas áreas invadidas com a condição de que os sem-teto dividam depois as despesas. No começo eles asseguram que vão pagar. Mas depois, por motivos sociais, de desemprego, as famílias acabam não pagando a conta de água, explica o responsável pelo departamento social da Cohab, Humberto Rodrigues de Lima.
Ele disse que, na última vez que foi à Sanepar pedir a instalação de uma torneira comunitária, para as famílias que ocupam fundo de vale no morro da Formiga, perto do Parigot de Souza 2 (zona norte), recebeu a conta dos atrasados. A Sanepar pede que a Cohab seja a fiadora das torneiras comunitárias, mas não podemos arcar com essa responsabilidade, alega Humberto de Lima.
Segundo ele, a Sanepar só instalou a torneira comunitária depois da uma intervenção da Promotoria dos Direitos Constitucionais. Mesmo assim, a ligação de água foi avalizada pela Federação das Favelas, Núcleos e Assentamentos de Londrina, informa Humberto de Lima.
Sabendo disso, a coordenadora da invasão da última sexta-feira, Ivani Paulina da Silva, 40 anos, disse que vai procurar nesta semana o promotor dos Direitos e Garantias Constitucionais, Paulo Tavares, para pedir a instalação da torneira comunitária.
A Folha procurou ontem o gerente metropolitano da Sanepar, Paulo Kishima, para que ele falasse sobre a conta atrasada das torneiras comunitárias dos sem-teto, mas ele estava em reunião, pela manhã, e não retornou o telefonema. O promotor Paulo Tavares também foi procurado ontem, pelo telefone, para comentar o problema, mas não retornou a ligação.
Ivani diz que comandou a última invasão no fundo de vale e que 32 famílias vão se instalar no local nos próximos dias - por enquanto, cerca de 10 barracos foram erguidos. Ela conta que escolheu o local pela vista - ponto alto da Cidade com visão para o conjunto Ilda Mandarino e também porque lá existe uma mina de água de fácil acesso.
A invasão aconteceu no final da tarde de sexta-feira. As famílias dividiram o terreno em lotes de 10 x 20 metros, atearam fogo no mato e fizeram a limpeza do local. Como a maioria das pessoas que estão se mudando para o local, Ivani morava na zona norte e enfrenta dificuldades para arcar com o aluguel e as despesas da casa. Separada do marido, ela conta apenas com uma pensão de R$ 112 para sustentar duas filhas menores, uma deficiente mental e outra deficiente auditiva. Não posso trabalhar porque preciso cuidar delas.
Ângela Maria da Silva, 35 anos e quatro filhos, diz que não conseguiu pagar aluguel e há 10 anos espera que seja liberada inscrição para uma casa popular da Cohab. O marido ganha R$ 150 como auxiliar de serviços gerais. Ela diz que o dinheiro não é suficiente para pagar um aluguel.
Humberto de Lima avisa que as famílias não poderão permanecer no terreno, já que uma lei federal preserva as áreas de fundo de vale. O chefe do departamento social da Cohab diz que elas terão que ser assentadas em outro local. Mas comenta que não há previsão para remover os ocupantes, já que isso depende de recursos financeiros que a companhia não tem.
Preocupado com a instalação de um número grande de barracos naquela área, o presidente da Associação dos Moradores do Parigot de Souza 3 e Jardim dos Pássaros, Benedito Albonetti, esteve ontem pela manhã conversando com os sem-teto. Ele ouviu de Ivani da Silva a garantia que apenas 32 famílias iriam se mudar para lá. Os moradores estão preocupados com problemas de segurança e desvalorização do terreno, alega Albonetti.
O chefe do departamento social da Cohab, Humberto de Lima, lembra que, pelas últimas estatísticas, Londrina tem 4.318 famílias vivendo em áreas irregulares da Cidade, como fundos de vale, áreas de conservação, favelas sem urbanização ou núcleos de favela (até 50 barracos).


