Sanepar corta a água de mil famílias
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segunda-feira, 04 de junho de 2001
Érika Pelegrino De Londrina 
A Sanepar já está cortando o fornecimento de água aos usuários de Londrina que estão inadimplentes. A medida começou ontem pelos conjuntos Chefe Newton e Maria Celina, na zona norte da cidade, e atingiu mil famílias no primeiro dia de cortes. A empresa fez uma divisão do município por setores e mais 770 residências vão ficar sem água até o fim da semana. Sem dinheiro para pagar as dívidas, muitas pessoas se dizem enganadas por uma ação judicial que inicialmente suspendeu os cortes dos usuários em débito com a Sanepar e depois foi derrubada por decisão do Tribunal de Justiça.
O corte estava suspenso desde março do ano passado, quando o vereador Hélio Cardoso (PSB), então promotor de Defesa do Consumidor, entrou com a ação judicial e conseguiu liminar favorável. Em abril o Tribunal de Justiça suspendeu a liminar e autorizou a Sanepar a retomar os cortes do fornecimento. Nesse período, 35 mil pessoas deixaram de pagar suas contas, acumulando uma dívida de R$ 6 milhões.
O promotor aposentado e vereador Hélio Cardoso admitiu ontem que a ação proposta por ele acabou prejudicando a população, mas tentou dizer que a responsabilidade não foi totalmente sua. A liminar era apenas para situações emergenciais. Agora as pessoas deixaram de pagar a conta por um ano e acharam que não ia acontecer nada - declarou. O vereador alegou que está tentando rever a situação com um projeto de lei que tramita na Câmara propondo o parcelamento da dívida em 36 vezes. Ele disse ainda que apenas propôs a ação, mas quem concedeu a liminar suspendendo o corte foi a Justiça.
Se isto não tivesse acontecido, as pessoas teriam dado um jeito de pagar suas contas e não teriam deixado acumular, reclamou Alaíde Santos. Com a promessa de que a água não seria cortada a maioria das pessoas preferiu comprar comida do que pagar a conta, complementou.
Desde que a Sanepar conseguiu a liminar suspendendo a proibição do corte, diariamente 500 pessoas procuram a empresa na tentativa de negociar suas dívidas. Ontem à tarde, muitas estavam desde de manhã esperando atendimento, mas sem esperança de conseguir negociar de acordo com suas necessidades.
A Sanepar está exigindo que o inadimplente pague 50% do valor devido e parcele o restante. Embora o gerente metropolitano Paulo Kishima afirme que dependendo da situação da pessoa (desempregada, local onde mora) o percentual de entrada pode ser reduzido, muitas pessoas dizem que não conseguiram negociar. No assentamento São Jorge, zona norte de Londrina, onde a Sanepar deve efetuar os cortes a partir de hoje, a maioria diz que não tem como pagar.
É o caso de Nelsina de Castro, desempregada, quatro filhos, mãe solteira. Ela tem uma dívida de R$ 800,00 e ao tentar negociar exigiram o pagamento de R$ 400,00 para só então parcelar o restante. Quando me falaram isso virei as costas e vim embora. Eu não tenho esse dinheiro. Vou deixar que cortem a água, afirmou.
Marlene Cruz, desempregada, dois filhos, disse que nem foi tentar negociar a dívida. Eu não tenho o dinheiro nem da passagem de ônibus, afirmou. Sua dívida é de R$ 233,00. Com o marido inválido na cama, três netos pequenos para cuidar, Natalina de Souza, afirmou estar desesperada com a possibilidade de ficar sem água. Somos em nove pessoas na casa, apenas meu filho trabalha e ganha salário mínimo, contou.
Ela afirmou que tentou negociar a dívida de R$ 360,00 mas não conseguiu. Me pediram para pagar R$ 73,00 de entrada. Como vou dar esse dinheiro se meu filho ganha só 180 reais. Vamos comer o quê? - questionou.
Paulo Kishima, da Sanepar, destacou que a tentativa de proibir o corte do fornecimento de água judicialmente foi uma estratégia para iludir as pessoas. Ele alegou que apesar de já começar a efetuar os cortes, não saberia informar quantos dos 35 mil inadimplentes negociaram suas dívidas.


