Salvamento de animais desperta ação de técnicos
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de agosto de 1998
Paulo Pegoraro 
Os contingentes humanos cada vez mais se organizam na defesa de seus direitos, quando submetidos a impactos de grandes obras como barragens de hidrelétricas. Os reservatórios engolem grandes extensões de terras e afetam todas as demais formas de vida, tão importantes para o ecossistema quanto o homem.
Edson MazzettoRadicalPaulo Bezerra Neto, agrônomo: Nenhuma barragem é boaOs impactos afetam a biodiversidade, cada vez mais comprometida, e motivam a preocupação de especialistas de várias partes do País, como manifestaram em recente encontro na Hidrelétrica de Salto Caxias, para debater o resgate da fauna durante o enchimento dos reservatórios.
O lago da Hidrelétrica de Salto Caxias, que está sendo construída no Rio Iguaçu pela Copel, começará a ser formado em 15 de setembro. Até dezembro, a hidrelétrica deverá operar a primeira das quatro turbinas, marcando o início da aplicação de uma proposta de padronização de diretrizes sobre fauna impactada.
Edson MazzettoEstudosSérgio Morato, biólogo, examina mapa do alagamento de CaxiasOs especialistas que participaram do encontro entendem que a interferência sobre o comportamento e a remoção dos animais devem ser as mínimas possíveis, para que eles próprios transfiram seus hábitats através de deslocamentos naturais. De outra forma, podem estar sendo condenados.
A preocupação com a fauna em áreas impactadas considera a previsão de mais 200 barragens no País, com alagamentos que atingirão mais de 10 milhões de animais das diferentes espécies. O agrônomo Paulo Bezerra Neto, do Núcleo de Pesquisa e Conservação da Fauna, estima interferência em mais de 50 mil animais em cada alagamento. Neto acompanha uma barragem sob grande contestação, a da Hidrelétrica Sérgio Mota, originalmente Porto Primavera, encravada no Rio Paraná, que está sendo concluída pela Companhia Energética de São Paulo (Cesp), entre São Paulo e Mato Grosso do Sul.
Edson MazzettoPreservaçãoBeloni Martere, bióloga, atua na Mata Atlântica em Santa CatarinaO agrônomo afirma que, por melhores que sejam os projetos ambientais em torno de barragens, os impactos são graves. Em maior ou menor escala. Nenhum serve como modelo. Por isso, segundo ele, as barragens só deveriam ser construídas em pontos específicos, onde, pelas condições geográficas do terreno, os impactos efetivamente fossem mínimos.
No aspecto da fauna, Neto observa que os animais submetidos a operações de resgate na fase de formação de lagos acabam perdendo sua função ecológica, pelo dissociamento ao hábitat natural, o que compromete claramente a biodiversidade. O Brasil tem a maior diversidade biológica do mundo e é, ao mesmo tempo, o segundo (o primeiro é a Indonésia) em número de aves e o quarto em número de mamíferos sob risco de extinção.
A bióloga Beloni Pauli Martere, da Fundação de Assistência Técnica e Proteção do Meio Ambiente de Santa Catarina (Fatma), chama atenção para o fato de que, na fauna, entre outras consequências da redução da diversidade das espécies, pode ocorrer também a consanguinidade. O acasalamento entre animais de uma mesma família podem favorecer o surgimento de doenças e dizimar espécies definitivamente, alerta.
Edson MazzettoAliadaGenoveva Maurique, bióloga: Os bichos e as plantas são indefesosPesquisadores da organização não-governamental Associação Mata Ciliar, que coordena o Plano de Manejo para Pequenos Felinos Brasileiros, e atua com a Universidade de São Paulo, estão cadastrando e recolhendo amostras de pêlo, sangue e pele de animais nos zoológicos brasileiros. O projeto investiga a extinção de espécies da fauna, com comprometimento da biodiversidade.
Durante a semana, eles estiveram no zoológico de Cascavel. As amostras coletadas permitem detectar doenças genéticas, inclusive as transmissíveis, que estão entre os fatores de comprometimento das espécies. O veterinário Jean Carlos Ramos Silva destaca que outro fator que contribui para a extinção é a predação entre os próprios animais, que ocorre principalmente pela redução de florestas.
Até agora, os pesquisadores já cadastraram 370 animais de oito espécies de felídeos em todo o Brasil. Destas, sete estão em risco flagrante de extinção, com são os casos da onça-pintada, da suçuarana e da jaguatirica. Segundo o veterinário, os zoológicos não são locais ideais para a vida animal, mas constituem importante laboratório para estudos sobre a preservação de espécies. Neles a fauna é mantida em condições de sanidade.


